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it´s just me

Às vezes me sinto em uma corrida onde todos estão indo para frente, e eu fico para trás. 

Por Giovanna Melim

Quero me mudar de volta para a Inglaterra, quero ficar longe dos meus pais, longe da gritaria constante. E não consigo. Nem sequer arrumar uma vaga de estágio.

Desde pequena, tive muitos sonhos. Quase todos envolvem sair dessa casa.

Agora são 15:44 e eu escuto os berros dos meus pais sobre como a empresa do meu pai está falindo, e, de alguma forma, a culpa é da minha mãe e, consequentemente, minha.
Mais uma ameaça de separação. Será que estamos ao menos perto disso?
Já pensei muitas vezes que minha vida seria melhor se isso acontecesse.

Eu almejo ficar o mais longe possível dos meus pais. Ainda assim, eu os amo e sou muito grata. Mas existem limites traçados pela alma de cada ser humano. Gostaria que ambos pudessem me ouvir.

Pai, a sua monotonia, o seu medo de arriscar, o seu desespero ao menor sinal de algo fora de controle, a sua descrença nas nossas dores psíquicas e, principalmente, a sua falta de amor e afeto foram sentidas e se enraizaram dentro dessa casa. O senhor costuma se isolar da culpa pelos erros que comete e colocá-la em mim e na mamãe. Mas ninguém está sempre certo. Aceite os seus erros. Trabalhe neles. Sentimentos existem. E doem muito.

Nessa luta entre ambos, acabo ficando ao lado da minha mãe. Apesar de todas as nossas desavenças, eu me vejo como mulher nela. Minha mãe tem 47 anos, próxima da menopausa. Eu sinto a sua dor, mãe. Sei que, às vezes, você olha para trás e repensa como teria sido a sua vida sem ele, e talvez até sem mim. Sei que pensa no que poderia ter conquistado.

Vejo fotografias mais antigas suas, e isso me assusta. Para onde foi todo o senso de liberdade que, em algum momento, compartilhamos? O que te levou a terminar assim, mãe?
Lidar com as consequências da sua doença na minha vida não é fácil. Mas agora que cresci e me vejo como mulher, eu te entendo.

Você carrega a falta da mãe que não teve quando precisava, carrega um amor paterno que te ensinou que gritar primeiro é a melhor opção. E hoje, carrega também a ausência do amor de um marido que um dia prometeu tudo isso, em meio às juras de amor de dois jovens.

Não posso te dar essas coisas, mãe. Nós nem ao menos conseguimos nos entender direito. Mas vim a esse mundo para manter o seu senso de liberdade vivo, através de mim. Ainda irei conquistar a minha, e você verá a sua. Tomando a decisão que quiser.

Quando foi que a minha vida, e a nossa casa, passaram a girar em torno de uma dinâmica mesquinha em relação ao dinheiro?

A ideia de amor já nasce deturpada em mim. Desde criança, eu sentia que precisava provar que era benéfica para alguém para receber amor de volta.

Ao longo desses 21 anos, tive poucas amizades. E, em todas elas, doei até o que não tinha, sempre priorizando o afeto. Como se amar fosse, antes de tudo, oferecer. Como se só assim eu pudesse ser suficiente.

E eu nunca fui o suficiente.

Dos 6 aos 14 anos, tive uma grande amizade, provavelmente a mais pura que já existiu na minha vida. Jamais amarei outra amiga como amava aquela. Eu a sentia como uma irmã de alma.
Aos 14 anos, ela foi transferida para outra escola e fez novas amizades. Isso me doeu. Me senti desencaixada na vida dela, como se, de repente, eu não coubesse mais naquele lugar que antes era tão meu.

E, por isso, decidi que era hora de deixá-la ser feliz. Como eu jamais fui naqueles anos solitários do ensino médio. Sinto falta dela até hoje.

Depois disso, aprendi a não esperar tanto das pessoas. Ou, pelo menos, tentei. Me acostumei com a ideia de que talvez eu não tivesse muitas amizades, que talvez eu simplesmente não fosse alguém que se encaixa com facilidade.

Até que a faculdade chegou. E, com ela, vieram amizades que me salvaram de uma escuridão profunda e vazia onde eu estava completamente sozinha. Pessoas que, sem saber, me deram suporte em momentos em que eu já não acreditava mais em conexão nenhuma. Hoje, olhando pra trás, eu sei que, sem elas, eu não teria conseguido.

E, mesmo com essa mania de me doar tanto pelos outros, a dor de não receber nem o mínimo de volta me matava, pouco a pouco. Era silencioso. Não vinha de uma vez só. Ia se acumulando nos detalhes, nas pequenas ausências, nas vezes em que eu estava inteira e recebia quase nada em troca. E, ainda assim, eu continuava. Como se amar fosse insistir, mesmo quando já estava doente.

Eu escrevo hoje para que, um dia, no futuro, eu possa reler e entender se essa versão de mim mudou.
Eu já fui muitas versões. Algumas melhores, outras bem piores.

Hoje, eu me encontro em dor. Em luto. Me encontro tentando fugir do que sinto, abusando de substâncias para não encarar a dor real que existe aqui dentro. E eu não sei onde isso vai me levar.

E isso não é só sobre mim. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, milhões de pessoas recorrem ao uso inadequado de medicamentos como forma de lidar com sofrimento emocional, e o uso de ansiolíticos e opioides sem acompanhamento tem crescido, especialmente entre jovens. No Brasil, o consumo de medicamentos controlados aumentou significativamente nos últimos anos, muitas vezes não por necessidade clínica, mas por tentativa de silenciar dores que não são físicas.

Existe uma tentativa constante de anestesiar o que grita por dentro. Mas o corpo cobra. A mente cobra. E a dor, quando não é sentida, não desaparece, ela se transforma. Todos os dias, eu tento me manter ativa, cumprir meus deveres, porque, sem isso, eu sinto que nem sair daqui eu conseguiria. Mas, ao mesmo tempo, eu não consigo me concentrar. Ou eu preciso do vazio, de não sentir nada, ou, quando tento focar em algo, eu desmorono logo em seguida.

E, ainda assim, eu sigo.

Porque, no meio de tudo isso, existe uma parte de mim que ainda acredita. Que ainda quer viver outra versão. Que ainda quer sair dessa casa, desse ciclo, desse padrão.

Eu recaio, mesmo sem perceber totalmente. Mas também me levanto, mesmo sem força. E talvez seja isso que me mantém aqui.

Mas existe um medo que não vai embora.

O medo de não conseguir realizar nada.
De ver o tempo passar e perceber que eu fiquei parada, assistindo a minha própria vida de fora.
De não conseguir sair dessa casa, de não conseguir construir nada sólido, de não me tornar quem eu sempre achei que seria.

E, pior do que isso, o medo de acabar sendo só o amor falido de alguém. Ou nem isso. De viver uma vida solitária, olhando para trás e desejando voltar aos meus 20 anos, como se ali tivesse sido o único momento em que ainda existia alguma possibilidade de mudança.

Como se tudo que viesse depois fosse só consequência de não ter sido suficiente antes. E isso me assusta mais do que qualquer outra coisa.

Porque não é só sobre futuro. É sobre a sensação constante de que eu posso estar desperdiçando a única chance que eu tenho de viver algo diferente.

Eu quero um futuro diferente. Quero a minha vida na Inglaterra, quero construir algo meu, quero aprender a existir sem precisar me provar o tempo inteiro. Quero aprender a me dar o amor que sempre tentei arrancar dos outros.

Eu sei que não estou pronta ainda. Mas também sei que estou tentando.

E, por enquanto, isso precisa ser suficiente.

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