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it´s just me

Entre tudo que vivi, o que escolhi me tornar

Um relato sobre trauma, silêncio, sobrevivência e a tentativa de recomeçar

Giovanna Melim

Acho que me lembro de ter 12 anos quando percebi que odiava minha mãe, que senti esse ódio de fato em meio às minhas lágrimas. Eu sei que são palavras fortes e podem soar até cruéis de certo modo.

Cresci com pais que supostamente me deram de tudo, até o além do necessário, coisas que ela sempre fez questão de lembrar. Me lembro de nunca poder contar com a mamãe direito para nada. Se eu estava muito mal, ela fazia aquilo se tornar um problema dela. De repente, ela estava muito mal também. Se precisava que me visse em algum problema, era fútil demais, ao mesmo tempo que, se me atacassem, ela reagiria feito leoa, e depois usaria do que foi dito no ataque para me menosprezar mais ainda.

Sempre me recordo das humilhações que eram apenas de uma mãe tentando fazer a filha vestir algo que não lhe cabia, por não ser uma criança magra demais. Aos 11 anos, eu já odiava minha relação com comida. Mamãe sempre fez de tudo para eu perder peso e morria de medo de eu não emagrecer, reflexos que foram colocados nela por sua mãe e pela sociedade. Assim, nós mantivemos o vínculo.

Acontece que, aos 12 anos, eu já sentia uma dor e uma angústia difíceis de descrever em tão pouca idade. Quando contei a ela, primeiro não me entendeu, mas, como foi diagnosticada desde meu nascimento com depressão e ansiedade, foi até uma psicóloga em busca de tratamento ao se deparar com braços mutilados de sua filha. Na época, seria colocado como algo na “moda”, automutilação.

Aos 13 para 14 anos, desprezava o som da voz da minha mãe. Sua doença nunca foi fácil de lidar. Desde menor, me lembro de sonhar em ter uma família e dizer: “jamais serei como eles são”. Os passos da minha mãe são memorizados na minha cabeça. Aos 13 anos, brigávamos todos os dias, humilhações constantes, ameaças de separação de um pai e marido que fora forçado a lidar com tudo isso, todo tipo de humilhação verbal.

Lembro-me da culpa: “Eu sei que a amo, mas como posso querer tanto ter vindo de outra pessoa?” “Se foi de minha escolha essa família, por que me coloquei nessa situação? Não consigo suportar essa alma.” Passei por muitos traumas emocionais nessa fase, aos 14 anos. Ela esteve presente até onde pôde. E disso sei: ao ver o medo de perder a filha, minha mãe agiu.

Por muito tempo, tive relações mais próximas e outras bem distantes com mamãe. Às vezes, ela se fazia por acreditar sermos colegas e amigas; logo após, as humilhações, os berros e a pressão psicológica voltavam. Impossível seria comunicar toda dor que ela me causou, pois jamais entenderia que, seus erros não as fazem uma mãe horrível, apenas alguém como todos nós, que errou. Tudo ao seu alcance para me magoar, ela usaria. Aqui narro os fatos das dores de lidar com a instabilidade de minha casa. Sou grata por minha mãe e tudo que me proporcionou em sua vida, sempre.

Durante meus 15 aos 19 anos, me relacionei com alguém que foi capaz de tirar minha feminilidade, minha autoestima, meu valor, minha saúde mental,  tudo. Eu era apenas uma criança de 15 anos. Se você parar para olhar com base em dados reais, não tem nem discussão: 15 anos ainda é infância/adolescência, não é vida adulta. O próprio cérebro ainda não está pronto.

As pesquisas do National Institute of Mental Health mostram que o cérebro só termina de se desenvolver lá pelos 24–25 anos, e justamente a parte que controla impulsos, decisões e noção de consequência (o córtex pré-frontal) ainda está imatura nessa idade. Então não é “falta de maturidade” no sentido moral, é literalmente biológico. Não é só ciência, a lei também deixa isso muito claro. A Organização das Nações Unidas considera criança toda pessoa com menos de 18 anos.

Brincar de adulto em uma idade tão jovem trouxe inúmeras consequências em mim. Mesmo após finalmente conseguir fugir do processo abusivo que vivia ali dentro, senti, e às vezes ainda sinto, medo apenas de lembrar da voz dele. Dos 15 aos 19, vivi dentro de uma doutrina, onde fui forçada a ver a vida como feita para ser vivida por ele. Ele tinha controle sobre quem eu falava, com quem eu interagia, minhas amizades, meus vínculos com meus pais, coisas de valor, tudo. De tempos em tempos, colegas de faculdade se recordam da felicidade dos tempos de escola, eu só pensava todos os dias em como queria que acabasse.

Meus anos de Ensino Médio foram repletos de faltas. Ainda em meio à COVID-19, consegui fugir do âmbito escolar por dois anos e viver quase presa nele. Nos meus últimos anos, meu pesadelo não tinha fim. As ofensas eram constantes, abusos verbais, diminuindo minha inteligência, minha integridade como mulher, sem contar as que vinham em forma de piadinhas discretas na frente da família dele. Se algo não fosse do jeito dele, ele me punia com o castigo do silêncio: me ignorava, ignorava ligações e mensagens, até decidir que eu estava perdoada.

Ele me ignorou por um mês inteiro, sem qualquer explicação, e, nesse mês em diante, nunca mais fui a mesma. Sentia nojo do controle que ele tinha sobre minhas reações e ações, nojo de ser tão repugnante de deixar alguém me abalar daquela forma, sentia nojo de ter deixado ele entrar na minha mente.“Vou sair e ficar com quem quiser, pode se matar aí.” Aquilo ecoou por um segundo na minha mente. Vi uma navalha de sobrancelhas e foi o suficiente. Depois, só veio o sangue dos meus braços. Após isso, a dor, que distraiu do enojar de ter deixado uma pessoa me levar a esse ponto. Diversos churrascos eram feitos na casa dele, onde fui apresentada às drogas pela primeira vez e aos efeitos do vício em bebida, com brigas constantes e ofensas de terceiros relacionadas a mim.

Irei narrar apenas três episódios, pois sei como isso é um gatilho para as que sofrem e sofreram abusos. A primeira vez que ele agarrou meu pulso, estávamos na cozinha da tia dele. Eu quis levar em um recipiente, e ele me chamou de burra, disse que iria embora porque me magoou. Ele segurou meu pulso com força e disse: “Você não vai me fazer passar vergonha”.

Certa vez, estávamos discutindo no carro. Ele recém tinha tirado habilitação e adorava dirigir de forma imprudente. Durante a discussão, me lembro de estarmos exaltados, e ele começar a acelerar o carro, como sempre fazia, até que perdeu a noção e quase causou um acidente que atropelaria, sem querer, duas pessoas. A discussão piorou após isso, visto que ele colocou nossas vidas em risco. Ele decide dirigir até uma rua deserta e mal iluminada, para o carro e diz: “Desce do meu carro agora, se vira, volta andando”.

Lembro de, já em prantos, aceitar, descer do carro, jogar longe o anel que ele tinha me dado e ali declarar que o controle tinha acabado. Ele fingiu que foi embora e voltou com o discurso: “Olha como você é teimosa”. O mesmo se repetiu outra vez. Após uma crise de raiva, me expulsou da sua casa de madrugada, jogou minhas coisas na rua, não deixou nem eu colocar as meias enquanto eu chorava, o que já estava acostumada. Não queria ter que ligar para o meu pai, pois sabia que o perdoaria depois.

Dito isso, ele me deixou para fora da garagem, na calçada, chorando, sem meias, por 10 minutos, até reaparecer chorando e implorando perdão. “Não vamos deixar chegar nesse ponto, ok?”

Por algum tempo, antes de me curar dele, ele assombrava minha casa, minhas músicas, as pessoas ao meu redor que nada tinham me feito, apenas pelas memórias da guerra que travei com um homem pela primeira vez. Após me ver curada, ele continuou tentando voltar ao espaço que tinha, mas eu cresci demais para os 15.

Meus pais nunca interferiram, e honestamente, mal poderiam. Tamanha cegueira eu já havia entrado. Até o dia em que percebo que meu pai se exaltou, e muito, ao vê-lo agarrar meus pulsos em meio a uma discussão. Eu só queria entrar em uma loja. Ele não gostou, ficou bravo. Ao tentar encostar nele, senti que agarrou em meus pulsos e puxou meu braço Não imaginava que meu pai veria, e jamais imaginaria ver ele reagir a algo daquela forma. Ao perceber que estava magoando meu pai, terminei naquele dia, na minha cabeça, aquela relação. O meu pai consegue tocar em pontos sensíveis da minha alma. Não poderia deixar ele ferir meu pai.

Papai nunca foi, e jamais será, aquele tipo de pai que demonstra amor e carinho por meio de palavras ou de gestos, talvez quando eu era menor. Meu pai sempre trouxe alguma forma sutil e satírica de me mostrar que estava presente em minha vida, e eu o admirava desde sempre, com estrelas nos olhos.

Papai não gritava comigo, nem me agredia com palavras. Mas, conforme a vida passa, nós vemos todos os olhares de todas as pessoas. Meu pai cresceu na vida mediante seu esforço próprio e saiu do vazio. Nunca foi arrogante e também jamais sabe negar pedidos, até mesmo aqueles inaceitáveis.

Sempre senti que poderia compartilhar as coisas com meu pai, sem medo de ser julgada ou de ele guardar como arsenal de ofensas depois.

Hoje em dia, aos 21 anos, mantenho uma relação estável com meu pai. Sou muito grata a todas as oportunidades que já me deu nessa vida e tudo que fez. Não somos mais tão próximos. Percebo que meu pai, inúmeras vezes, presenciou absurdos sendo ditos dentro dessa casa, pedidos de socorro, entre outras coisas, mas continuou monótono, como sempre foi.

Sua descrença em terapias ou psiquiatras sempre foi evidente, como algo que jamais mudaria o que eu e minha mãe somos. Por anos, supliquei a Deus por uma nova família, uma que me entendesse, que me apoiasse e que acreditasse em mim. Morria de medo de crescer e me tornar agressiva como mamãe. E foi exatamente o que aconteceu.

Em diversas fases da minha vida, dos 18 anos até agora, me percebo como minha mãe, gritar mais alto, humilhar mais, fazer ela sentir o que eu sempre senti presa dentro dessa casa. Minha mãe passou anos de uma vida que se arrependeu de ter perdido, tentando achar culpados para atirar todo seu ódio e tempo perdido nas opções do que ela poderia ter vivido. Normalmente, era eu.

Sabendo disso tudo, meus pais nunca acreditaram em algo que eu sonhava. Meu pai nunca acredita em nada que não seja lógico, que possa estar dentro de uma caixinha e com margem de lucro. Crescer ouvindo todas as desmotivações deles doeu muito. Não culpo os erros dos meus pais. É a primeira vez deles aqui. Só sinto conforto em expor tudo que por tanto tempo guardei dentro de mim.

Não tenho alguém para contar minhas dores sem depois ouvi-las sendo feitas de chacota. Não tenho alguém que motive meus sonhos sem me mandar cair na real. Nunca tive alguém que me ouviu e me amou por mim. Poucas vezes posso contar nos dedos quando escutei do meu pai um “eu te amo” ou um “estou orgulhoso de você”.

Aos 10 anos, sonhava em morar fora e sentia que ali era meu lugar, na Inglaterra. Sempre fiz questão de contar e tentar planejar com meus pais algo para o futuro. “Você precisa sair do mundo da imaginação, isso é a vida real. Mas, mesmo assim, insisti nisso até não ser possível não aceitar. E, quando fui, um mês na Inglaterra já comprado, só ouvi que deveria desistir, porque nunca tive essa capacidade. E foi aí que descobri, é assim que eles me veem: incapaz.

Se eu fosse me descrever enquanto morei na Inglaterra, diria que era a pessoa mais capaz do mundo. Vivi, em um mês, a sensação mais libertadora do mundo. Havia silêncio, havia paz. Eu me provei todos os dias que sempre fui capaz de fazer tudo por mim. Não sou inútil. Não sou vagabunda. Não sou uma porca preguiçosa. Sou, sim, capaz de sair dessa caixa. E pensei assim durante todo o mês, até voltar à árdua realidade de viver na minha casa e com os meus pais. Daria qualquer coisa no mundo para jamais ter voltado. 

Voltei sentindo que haviam arrancado meu chão, que haviam me dado um gosto do que seria ser livre e feliz e tomado tudo isso de mim. De repente, lá estava eu, na minha cama, chorando. O que eu senti não é exagero, nem drama. Existe um nome para isso: choque cultural reverso. Segundo o U.S. Department of State, voltar para casa depois de uma experiência no exterior pode gerar sentimentos de perda, vazio e deslocamento, muito parecidos com um processo de luto. De acordo com a International Association for Cross-Cultural Psychology, esse processo envolve a perda de identidade temporária construída no exterior, o que pode gerar sintomas semelhantes ao luto, como saudade profunda, isolamento emocional e até sintomas depressivos. 

Eu me considero alguém muito emotiva, estressada e profundamente triste. O fato de os meus vínculos do intercâmbio terem se quebrado tão rápido me afundou em uma tristeza gigantesca. Sofri mais que a morte de alguns parentes. Nunca tive parentes próximos mesmo. Sempre fui a criança que já tinha demais para lhe ser dado o pouco que uma criança pede: atenção e amor. Menos de uma tia, muito querida minha, que trabalhava cuidando de mim na infância, já cheguei a idealizar uma mãe como ela quando menor.  Lembro-me de sentir raiva de todos quando voltei para casa, como se todos ao meu redor devessem apenas me deixar em paz, sofrendo da utopia que me foi arrancada.

Mencionando minha tia, me lembrei de dois fatores. Sou uma pessoa com uma enorme síndrome de abandono. Ter tido condições financeiras favoráveis me fez utilizar disso para me sentir mais amada. Que tenso, né? Das minhas duas famílias, nunca fui a neta, a prima ou a sobrinha preferida. Eu era a que nasceu em berço de ouro. Era a que não podia brincar porque as meninas não tinham e ficariam chateadas. Ouvi ofensas de adultos por pura inveja, num mundo de crianças tão puras. Aprendi desde cedo que oferecer algo, normalmente material, faz com que a pessoa te considere e te veja um pouco mais. Só, jamais, espere isso de volta. Se contente com o pouco, com o fato da pessoa ainda estar ali. Hoje em dia, virou um hábito presentear quem eu amo, mas jamais espero algo que seja.

Após esse primeiro namoro, tive algumas outras experiências. Decidi que, para superar aquele abuso, o único jeito de sair 100% seria me entregando 100% a outra pessoa. Sim, péssima ideia. Um ano e alguns meses depois, uma família completamente arrogante e egocêntrica e completamente sem educação, um namorado que queria controlar roupas, fotos e até interações. Terminamos. Percebi como havia crescido, pelo fato de ter tolerado bem menos e corrido o mais rápido que pude. Não culpo esse segundo namorado, no fim , ele me fez muito ser quem sou hoje em bons sentidos. Espero que aprenda com o que vivemos.

O amor ainda me assusta. A ideia de aprisionamento, ou de dar forças para alguém me machucar, ainda dói. Existe sempre uma parte de mim que lembra de tudo, que não esquece o que já foi capaz de acontecer. Eu odeio lidar com as dores, nem que sejam de pequenos amores. Por isso, tento evitar ao máximo deixar algo tão presente em mim. Existe sempre um limite, um cuidado, uma tentativa de não me permitir sentir tudo de novo, o medo da dor.

E isso não é só sensação. Segundo a Organização Mundial da Saúde, pessoas que viveram relações abusivas podem desenvolver sintomas duradouros como ansiedade, medo constante, dificuldade de confiar e até quadros de depressão. O corpo e a mente aprendem a viver em alerta, mesmo quando o perigo já passou. Estudos da American Psychological Association mostram que vítimas de abuso emocional frequentemente carregam traços como hipervigilância, baixa autoestima e medo de abandono, justamente por terem aprendido que amor pode vir acompanhado de dor.

Mas, com 21 anos, aprendi, após viver meu intercâmbio, que não existe nada no mundo que eu não consiga fazer sozinha. Eu me provei isso todos os dias, longe de tudo, longe de todos, sendo só eu. Hoje, eu aprecio minha solitude o máximo que posso. Existe paz em não depender, em não precisar, em não me perder dentro de alguém para me sentir inteira. Ainda estou aprendendo que amar não deveria doer. Mas, pela primeira vez, também aprendi que eu não preciso de ninguém para existir. E talvez isso seja o começo de tudo.

Tenho os mesmos sonhos, desde os 6 anos, quando queria ser cantora e nunca recebi um incentivo ou elogio em relação a isso. Sempre ouvia que deveria viver na vida real, e não no mundo da fantasia. Sem apoio, é muito mais difícil, mas jamais será impossível. Eu provei isso quando viajei 11 horas sozinha em um avião. Provei quando vivi meu intercâmbio, quando vi que existia um mundo onde eu cabia, onde eu era capaz, onde eu não era limitada pelas vozes que cresceram comigo. E vou provar de novo quando todos souberem o meu nome, aprendi que apenas eu estou por mim quando preciso.

Hoje, eu encerro falando de mim. Da minha busca pelo meu futuro, na Inglaterra, pelo futuro que sempre sonhei. Sozinha. Aprendi a torcer por mim mesma, porque muitas vezes fui a única que fez isso. Aprendi a batalhar pelas minhas dores, a entender que elas são válidas, mesmo quando ninguém ao meu redor entende. Segundo a Organização Mundial da Saúde, dores emocionais e traumas não deixam de existir só porque não são visíveis, e precisam ser reconhecidos para que exista qualquer tipo de cura. Ainda estou no meio do processo. Ainda erro. Ainda existem momentos em que eu me perco de mim, em que parece que tudo volta um pouco, mesmo que eu não queira. Mas, dessa vez, é diferente. Eu sei que consigo me encontrar de novo.

Estou aprendendo, aos poucos, a estender a mão para mim mesma. A não me abandonar, mesmo quando tudo dentro de mim tenta fazer isso. A American Psychological Association aponta que processos de recuperação emocional não são lineares, são feitos de recaídas, tentativas, erros e recomeços. E talvez seja exatamente isso que eu esteja vivendo agora, um recomeço que ainda dói, mas que ainda é um começo.

Também reconheço tudo que meus pais já fizeram por mim, inclusive o apoio financeiro que tornou muitas coisas possíveis na minha vida. Isso é real, e eu sou grata por isso. Mas, ainda assim, sigo tentando construir a minha própria independência. Sigo tentando provar, principalmente para mim mesma, que eu consigo.Indo em direção a uma versão minha que sempre existiu, mas que nunca teve espaço para ser.Indo em direção a um futuro que, mesmo sem apoio emocional, eu escolhi construir. E, dessa vez, não é sobre provar para ninguém. É sobre finalmente fazer isso por mim.

Também existe algo que eu carrego comigo há muito tempo: um ciclo de dor e ódio entre mim e minha mãe. Um ciclo que não começou em mim, mas que, por muito tempo, viveu através de mim. Eu aprendi a responder da mesma forma que fui ferida. A gritar mais alto, a machucar mais fundo, a devolver exatamente aquilo que um dia me destruiu. E, por muito tempo, isso pareceu a única forma de existir dentro dessa relação.Sendo espelhadas. Mas hoje eu vejo diferente. Eu não quero carregar isso comigo para sempre. Não quero repetir essa história. Não quero ser mais uma continuação de algo que começou muito antes de mim. Encerrar esse ciclo também faz parte de quem eu estou me tornando. E talvez seja uma das coisas mais difíceis que eu já escolhi fazer. Porque não é sobre esquecer. Não é sobre fingir que não doeu. É sobre olhar para tudo isso e, mesmo assim, escolher não continuar.

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