Por Giovanna Melim
Desde pequena, escuto uma música da Melanie Martinez em que ela diz: “Eu não sou um pedaço de bolo, para me descartar com pedaços das minhas emoções”.
Desde a pré-adolescência, quando a moda era beijar qualquer garotinho que você visse e seguir a vida, eu nunca entendi isso. Nunca quis me sentir uma opção, como um sabor de sorvete. A pessoa prova, gosta por um momento, e depois simplesmente vai embora.
Conforme fui crescendo, o medo de sofrer as consequências, de ser descartada, ferida, e de ser a única a sair prejudicada nessas relações só aumentou. Me entreguei tanto a alguém que acabei me perdendo no processo.
E, depois de me encontrar, me senti perdida de novo.
A sociedade me impõe que eu devo me relacionar com alguém e, ao mesmo tempo, eu também não gostaria de me sentir ainda mais solitária. Então, onde estou errando? Por que eu sempre acabo sendo o pedaço de bolo? O sabor que foi gostoso, mas não o suficiente para alguém querer o bolo inteiro.
Eu nunca pedi nenhum deles em casamento. No máximo, eu só queria a verdade. Me permiti sair com poucos, depois de sair daquelas relações instáveis e inconsequentes, mas cruzei com pessoas com quem me dei muito bem. E eu não queria perder aquilo.
Ao mesmo tempo, eu sempre soube que essas coisas têm prazo de validade. Ainda assim, nunca estou preparada para o baque de sentir o quão descartável eu posso ser.
E é nesse ponto que tudo volta a doer.
Porque, mais uma vez, eu confiei. Me permiti ir além, me permiti me entregar, inclusive de uma forma íntima, vulnerável, que nunca foi banal pra mim. Não foi casual. Nunca é.
E, ainda assim, me vejo exatamente no lugar que eu sempre temi, o do “casual” que foi casualmente cortado. Como se não tivesse sentimentos. Como se tudo que foi vivido pudesse ser reduzido a algo descartável, facilmente substituível.
Dói perceber que alguém com quem eu compartilhei tanto hoje não se dá nem dez minutos pra me responder.
E não é sobre cobrança. Nunca foi. É sobre consideração. É sobre não tratar alguém que se abriu de verdade como se fosse só mais uma experiência passageira. Porque pra mim nunca foi só isso. Nunca é, com nenhuma conexão minha.
Ao longo da vida, eu conheci muitas meninas e, por muitas vezes, julguei uma dor que nem era minha. Meninas que se entregaram, confiaram, e no fim se sentiram usadas. Eu não entendia como elas se colocavam nesse lugar.
Agora eu entendo.
A música Lie to Girls fala exatamente sobre isso. Sobre como a gente aceita coisas que não deveria, acredita no que quer acreditar, e ignora sinais só pra não perder algo que, no fundo, a gente já sabe que vai acabar.
E a dor não vem só deles.
A dor vem de mim. Vem de, mais uma vez, mesmo sabendo de tudo, eu ter me permitido sentir. Ter aberto tanto de mim pra outra pessoa, confiado, me entregado, sabendo exatamente onde isso pode e provavelmente vai dar.
Vem de perceber que, no fim, eu sou esquecível. Que, muitas vezes, eu nunca fui de fato validada. Mas não porque eu sou pouco.
E sim porque eu sinto demais em um mundo onde as pessoas sentem raso. E talvez o mais revoltante seja perceber que, no fundo, a gente foi ensinada a aceitar isso. Desde criança.
A lidar com a ausência, com o abandono, com a sensação constante de não ser suficiente, com o “o que eu fiz de errado dessa vez?”. Seja dos nossos pais, seja dos homens que passam pelas nossas vidas, seja até dos pais dos nossos filhos. Como se isso fosse parte natural de ser mulher. Como se fosse esperado que a gente aguente. E, mais do que isso, a engolir o que sente.
Porque quando dói demais, é exagero. Quando a gente se importa demais, é intensidade demais. Quando a gente espera o mínimo, é cobrança.
Então a gente aprende a silenciar. A diminuir o que sente. A fingir que não doeu tanto assim. Mas dói. E talvez, pela primeira vez, eu não queira fingir que não doeu.
Talvez eu só queira parar de me tratar como algo descartável antes mesmo que os outros façam isso.

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