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carrie bradshaw tinha razão sobre o amor

aos vinte anos, ela finalmente entendeu a carrie bradshaw.

e isso era quase humilhante de admitir.

porque durante muito tempo parecia exagero demais uma mulher adulta transformar um homem num eixo gravitacional. parecia absurdo viver esperando ligação, escrevendo sobre sentimento em computador velho, fumando angústia pela janela de um apartamento em nova york enquanto tentava convencer a si mesma de que ainda existia vida além dele.

até acontecer com ela.

e de repente carrie fazia sentido.

o problema é que ninguém entende a carrie bradshaw aos dezesseis. aos dezesseis tudo parece romântico. aos vinte, não. aos vinte você entende o ridículo da coisa. entende o peso. entende a vergonha de perceber que alguém começou a ocupar um espaço tão grande dentro da sua cabeça que o mundo inteiro perde a saturação quando ele não está ali.

ela começou a viver exatamente daquele jeito que jurava que nunca viveria.

ouvindo músicas e associando cada verso a ele como se o universo inteiro conspirasse pra transformar qualquer detalhe em lembrança. andando pela rua e pensando qual comentário faria ele rir. vendo casais no metrô e sentindo raiva porque nenhum deles parecia carregar aquela doença emocional que ela carregava dentro do peito.

porque paixão de verdade tem alguma coisa de doença.

e talvez a pior parte seja perceber que pela primeira vez na vida ela realmente não conseguia olhar pra outra pessoa.

não era escolha.
não era fidelidade bonita de filme.
era incapacidade mesmo.

como se o cérebro tivesse parado de reconhecer o resto do mundo como possibilidade.

os outros homens pareciam apenas homens.
ele parecia destino.

e isso destruía ela aos poucos.

porque amar daquele jeito faz tudo ficar desproporcional. faz uma resposta curta estragar a noite inteira. faz duas horas sem mensagem parecerem rejeição definitiva. faz o corpo entrar em estado de alerta por causa de uma pessoa que talvez nem imagine o tamanho do estrago que causa.

carrie bradshaw entendia disso.

da humilhação silenciosa de amar alguém mais do que deveria.
de transformar migalhas em esperança.
de sentir ciúme até do passado da pessoa.

principalmente do passado.

ela odiava pensar nas outras.
odiava imaginar histórias antes dela.
odiava a sensação de que talvez estivesse tentando alcançar versões de mulheres que já passaram pela vida dele sem carregar metade do peso emocional que ela carregava agora.

e a falta de reciprocidade enlouquecia.

porque talvez ele gostasse dela.
talvez até muito.

mas ela amava como um acidente de carro em câmera lenta.

pensava nele o tempo inteiro. sentia saudade mesmo quando tinham acabado de se despedir. e quanto mais tempo passava sem vê-lo, pior ficava. como abstinência emocional. como se o corpo inteiro começasse a implorar pela presença dele de um jeito quase vergonhoso.

e então vinha a raiva.

raiva de estar perdendo tempo longe dele.
raiva de sentir tanto.
raiva de perceber que o amor finalmente chegou justo da forma mais difícil possível.

porque ninguém fala sobre isso quando fala de paixão.

ninguém fala sobre o quanto ela pode deixar uma mulher inteligente completamente idiota.

e talvez fosse exatamente isso que carrie tentava escrever o tempo inteiro:
que às vezes o amor da sua vida não traz paz.

às vezes ele só faz você escrever crônicas às três da manhã tentando sobreviver ao fato de que, pela primeira vez, amar alguém parece maior do que você.

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