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it´s just me

a lenda de akai ito (赤い糸)

talvez isso explique porque, quando se viram pela primeira vez, eles não se cumprimentaram normalmente.

não houve distância educada.
não houve tempo.
não houve aquela hesitação típica de duas pessoas que ainda estão tentando se conhecer.

eles se beijaram.

como duas pessoas que haviam passado muito tempo procurando uma à outra sem perceber.

e desde então ela carrega essa sensação absurda de reconhecimento o tempo inteiro.

porque não parece uma paixão comum.

parece retorno.

ela sempre achou ridículas essas histórias de destino.
essas teorias de que algumas pessoas nascem ligadas por um fio invisível, uma linha vermelha atravessando tempo, oceanos, outras vidas e desencontros até finalmente fazer duas almas se encontrarem outra vez.

parecia coisa bonita pra filme.
pra livro triste.
pra gente apaixonada demais tentando dar sentido à própria dor.

até ele aparecer.

e então começou a surgir nela uma sensação estranha, quase humilhante, de que talvez algumas almas realmente se reconheçam antes mesmo das pessoas se conhecerem de verdade.

porque não era só desejo.

desejo ela já tinha sentido antes.
já tinha confundido carência com amor.
já tinha sobrevivido a términos que achou que destruiriam ela.

mas aquilo…

aquilo parecia outra coisa.

porque ela sente o cheiro dele mesmo quando ele não está perto.

às vezes no meio da madrugada.
às vezes andando na rua.
às vezes em lugares completamente aleatórios onde ele nunca sequer esteve.

e então o peito dela aperta daquela forma ridícula e dolorosa que só acontece quando alguém já entrou fundo demais na alma da gente.

ela conta os segundos pra vê-lo.

literalmente.

como uma adolescente apaixonada pela primeira vez.

e talvez essa seja a parte mais assustadora:
perto dele ela deixa de ser a mulher racional, cansada e controlada que passou anos aprendendo a ser.

perto dele ela volta a ser menina.

não de forma infantil.

de forma pura.

como se alguma coisa dentro dela finalmente pudesse existir sem precisar sobreviver o tempo inteiro.

e toda vez que vai encontrá-lo sente exatamente a mesma coisa:
como se estivesse indo conhecer o amor da vida dela pela primeira vez outra vez.

o mesmo frio no estômago.
o mesmo coração acelerado.
a mesma sensação absurda de familiaridade e descoberta acontecendo ao mesmo tempo.

e isso não faz sentido.

porque eles ainda têm tão pouco tempo.
tão poucas histórias.
tão poucos meses.

mas o sentimento parece antigo.

antigo demais.

como se tivesse começado antes deles mesmos.

e talvez seja isso que mais a destrói:
nada disso desaparece nem mesmo quando ele a faz sofrer.

nem durante o silêncio.
nem durante a ausência.
nem quando ela tenta racionalizar tudo e convencer a si mesma de que talvez esteja exagerando.

porque o problema é justamente esse:
nada parece exagero quando se trata dele.

não é só a conexão física, embora ela exista de um jeito quase brutal.
não é só o toque dele desmontando o corpo dela inteiro.
não é só a forma como os beijos parecem diferentes de qualquer outra coisa que ela já viveu.

é a sensação constante de pertencimento.

como se a alma dela repetisse silenciosamente o tempo inteiro:
você demorou, mas finalmente voltou.

e talvez a pior parte seja o futuro.

porque antes dele ela sempre imaginou o futuro sozinha.

não de forma triste.
não como alguém abandonada.

só como alguém que sabia, desde muito cedo, que os próprios sonhos eram grandes demais para caberem facilmente dentro da vida de outras pessoas.

ela sempre se enxergou atravessando oceanos.
mudando de país.
cantando em lugares que ainda parecem impossíveis.
vivendo vidas completamente diferentes da que nasceu vivendo agora.

e durante muito tempo aquilo parecia incompatível com amor.

porque pessoas vão embora.
relacionamentos acabam.
sentimentos mudam.

mas os sonhos dela sempre ficaram.

então ela se acostumou com a ideia de que realizaria tudo sozinha.

e talvez seja exatamente isso que torna aquele menino tão assustador.

porque agora, pela primeira vez, quando pensa no futuro… ele aparece.

não como dependência.
não como alguém que ela precise para existir.

mas como presença.

como se, por mais gigantesco que o futuro dela seja, alguma coisa dentro dela soubesse que ele ainda vai estar lá de algum jeito.

e isso não significa necessariamente finais perfeitos.

talvez eles se destruam antes.
talvez se desencontrem.
talvez a vida coloque oceanos entre os dois.
talvez o tempo transforme ambos em pessoas irreconhecíveis.

talvez eles precisem se perder para se encontrar direito depois.

mas ainda assim ela sente.

essa certeza absurda e silenciosa.

como se aquele lugar entre os dois tivesse sido colocado ali pra existir de verdade.

pra transformar alguma coisa.
pra ensinar alguma coisa.
pra construir alguma coisa.

talvez não agora.
talvez daqui vinte anos.
talvez em outra vida.

mas ela sabe.

e sabe com uma convicção que chega a assustar.

aquele menino não veio pra ser passageiro.

porque mesmo imaginando todos os futuros gigantescos que quer viver, todas as cidades, todos os palcos, todas as versões dela mesma que ainda vai se tornar… ele continua lá.

de algum jeito.

como memória.
como destino.
como amor.
como reencontro.

como alguém que a alma dela reconheceu antes mesmo que o coração tivesse tempo de entender.

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