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it´s just me

quando a minha vida vai começar?

eu acho que existem sonhos que escolhem as pessoas.

porque eu nunca me lembro de ter decidido amar a música.
quando percebi, ela já estava em mim.

desde pequena, eu cantava como quem respirava.

fazia apresentações com instrumentos que eu pedia aos meus pais sem noção nenhuma de como tocar.

pedia todos os cds da hannah montana e cantava como se soubesse cada palavra daquilo aos 5 anos.
como quem precisava daquilo pra existir direito.
eu olhava pra palcos com uma familiaridade absurda, como se alguma parte de mim já soubesse que pertencia ali. enquanto outras pessoas imaginavam vidas normais, eu me imaginava sendo ouvida pelo mundo inteiro.

e isso nunca teve a ver com fama.
nunca teve a ver com dinheiro.

sempre foi sobre cantar.

sobre o sentimento quase sobrenatural de abrir a boca e sentir alguma coisa atravessar meu corpo inteiro.
sobre ouvir uma música e perceber que existir talvez valesse a pena por causa da arte.
sobre imaginar que um dia eu também poderia fazer alguém sobreviver através de uma canção.

mas então eu cresci.
e crescer destrói um pouco os sonhos porque apresenta números, lógica, distância, realidade.

1 em 7 bilhões.

e de repente tudo parece ridículo.
a menina que canta no banho.
a menina que usa karaokês com amigos como desculpa pra sentir, por alguns minutos, que está perto da vida que queria viver.
a menina que volta pra casa depois e sente um vazio horrível porque percebe que a voz dela continua presa dentro de quartos pequenos enquanto o tempo passa rápido demais.

eu sinto culpa o tempo inteiro.

culpa quando não treino.
culpa porque não tenho dinheiro suficiente pra estudar tudo que quero estudar.
culpa porque onde eu vivo parece não existir acesso real ao tipo de preparação que eu queria ter.
culpa porque às vezes a faculdade, o jornalismo, a vida adulta e o cansaço consomem tanto espaço que sobra pouco de mim pra música.

e isso me mata lentamente.

porque eu não queria cantar só em banheiros.
não queria cantar só em momentos engraçados com amigos.
eu queria técnica.
queria disciplina.
queria passar anos estudando respiração, apoio, resistência, presença de palco.
queria me dedicar obsessivamente até descobrir tudo o que minha voz poderia virar.

mas parece que eu estou sempre esperando “o momento certo”.
e eu tenho medo desse momento nunca chegar.

medo de ficar velha demais.
medo de olhar pra trás um dia e perceber que desperdicei minha juventude inteira apenas sobrevivendo.
medo de nunca alcançar a versão de mim que existe tão viva dentro da minha cabeça.

porque essa versão existe.

e talvez seja isso que mais assuste.

eu consigo vê-la.

consigo me imaginar segurando um microfone diante de milhares de pessoas.
consigo imaginar o mundo inteiro ouvindo minha voz.
consigo sentir a realidade disso com uma força absurda, como se não fosse um sonho, mas uma lembrança do futuro.

e então eu volto pra minha vida normal e quase sinto vergonha de acreditar tanto nisso.

mas eu acredito.

porque desde que me reconheço como gente no mundo, eu me vejo cantando.
e porque algumas pessoas, ao longo da minha vida, olharam pra mim como se enxergassem alguma coisa especial ali também.
algumas disseram, sem nem me conhecer direito, que eu seria grande um dia.

e eu me alimento disso.

talvez porque seja a única maneira de manter o sonho vivo enquanto a realidade tenta matá-lo todos os dias.

todos os que me amam já ouviram de mim a frase:
“quando eu ficar famosa com a música.”

como se fosse inevitável.
como se eu estivesse anunciando um fato que ainda não aconteceu.

e talvez uma parte minha realmente acredite que seja.

talvez porque abandonar esse sonho pareça abandonar a mim mesma.

eu posso viver do jornalismo.
posso construir uma família.
posso ter filhos, uma casa bonita, uma vida tranquila.

mas eu sei que existiria sempre alguma coisa me assombrando em silêncio.

porque existem pessoas que conseguem viver sem arte.
e existem pessoas que não sobrevivem longe dela.

eu acho que sou uma delas.

e talvez seja por isso que eu ainda pergunto a deus, mesmo sem resposta:

por que colocar um sonho tão grande dentro de alguém
se ele nunca teve intenção de deixar acontecer?

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