TheGioBlog

it´s just me

the fool

clara demorou anos para perceber que não estava tentando amar apenas um homem.
estava tentando sobreviver a um reino inteiro.

a casa dos valença parecia bonita por fora. o tipo de família que sorria em aniversários, postava fotos em mesas fartas e fazia questão de parecer perfeitamente estruturada para qualquer pessoa olhando de fora. mas por dentro, clara sentia como se tivesse atravessado os portões de um castelo onde cada corredor escondia uma armadilha diferente.

o imperador oswald governava tudo com violência silenciosa. não precisava gritar o tempo inteiro para assustar. bastava um olhar atravessado, uma ironia curta, um comentário humilhante lançado na mesa como quem derruba migalhas aos cães. era cruel da forma mais perigosa: aquela que se convence de que está apenas “corrigindo” os outros.

ao lado dele existia morgana, a rainha de copas invertida. voz mansa, mãos delicadas e uma habilidade assustadora de parecer inocente enquanto deixava guerras acontecerem diante dela. morgana dominava a arte de esconder controle dentro de cuidado e culpa dentro de carinho.

o mais assustador sobre morgana não era o ferrão. era a delicadeza com que ela escondia o veneno no mel.

clara às vezes sentia que não estava entrando numa família, mas invadindo uma colmeia antiga demais para aceitar outra presença perto do herdeiro da rainha. morgana governava aquela casa como uma abelha-rainha, dessas que confundem proteção com posse e criam filhos incapazes de voar longe do enxame.

mas clara também percebia algo ainda mais triste: aquela colmeia já não produzia mel havia muito tempo. apenas ferrões. ressentimentos antigos. controle. culpa. todos pareciam presos uns aos outros por hábito, dependência e medo de abandono.

e havia selene, a irmã do reino. uma rainha de ouros invertida. bonita, egocêntrica, obcecada pela própria imagem e confortável demais em viver no centro das atenções para perceber qualquer destruição ao redor. clara às vezes pensava que selene era parecida com espelhos encantados: refletia apenas a si mesma.

mas a pior de todas talvez fosse vivianne.

vivianne era a rainha de espadas invertida. cruel sem precisar levantar a voz. o tipo de mulher que transformava invasão em conselho e manipulação em “preocupação”. queria ocupar todos os espaços possíveis na vida do sobrinho como se nenhuma mulher fosse digna o suficiente de existir ao lado dele.

clara percebia aquilo nos pequenos detalhes. nas interrupções. nos comentários passivo-agressivos. na forma como vivianne observava qualquer aproximação como uma ameaça pessoal.

às vezes clara tinha a sensação sufocante de que aquelas mulheres não queriam que o bobo crescesse. queriam apenas mantê-lo eternamente dependente delas.

e no centro daquele reino estava o bobo.

o bobo carregava dentro de si pedaços de todos eles.

tinha a dureza cruel do imperador quando se sentia confrontado. os silêncios covardes de morgana quando precisava escolher um lado. a manipulação disfarçada de preocupação de vivianne. e o ego ferido de selene quando não recebia a atenção que queria.

mas talvez o pior fossem os padrões que o bobo jamais percebeu carregar.

os ciúmes que começavam pequenos e logo sufocavam clara como fumaça dentro de um quarto fechado. a necessidade constante de controle disfarçada de amor. o desconforto diante da independência dela. a incapacidade de aceitar limites sem transformar tudo em ameaça, abandono ou ataque.

o bobo não sabia ouvir “não”.

não porque fosse incapaz de amar, mas porque havia crescido num reino onde ninguém jamais lhe ensinou que amar alguém também significa aceitar a liberdade dessa pessoa.

toda vez que clara tentava impor limites, o castelo inteiro parecia reagir junto. como se qualquer tentativa dela de existir fora das expectativas daquela família fosse uma afronta ao reino.

e o pior de tudo era que o bobo nunca conseguia se impor contra sua própria colmeia.

mesmo quando clara sangrava emocionalmente diante dele.

mesmo quando os comentários cruéis atravessavam a relação.

mesmo quando a invasão já era insustentável.

o bobo observava tudo como alguém dividido entre crescer ou continuar pertencendo ao único lugar que conheceu a vida inteira.

e clara entendia.

esse era o problema.

porque no fundo, muito no fundo, ela ainda via o menino perdido dentro do castelo.

o menino que talvez nunca tivesse aprendido o que era amor sem controle.
o menino que confundia posse com cuidado.
o menino que parecia pedir socorro mesmo quando machucava alguém.

como a carta do The Fool, o bobo caminhava pela vida sem perceber o precipício à frente. havia pureza nele. vontade de amar. vontade de ser livre. mas também irresponsabilidade emocional, impulsividade e uma incapacidade dolorosa de compreender o peso das próprias escolhas.

e talvez tenha sido isso que mais destruiu clara.

não amar um monstro é fácil. monstros assustam, e nós corremos deles.

difícil é amar alguém ferido que começa, aos poucos, a ferir você também.

clara passou meses tentando salvar o bobo daquele reino, sem perceber que o castelo inteiro começava lentamente a devorá-la junto. cada discussão virava coletiva. cada problema parecia envolver vozes demais, opiniões demais, interferências demais. ela já não sabia se amava um homem ou se estava sendo julgada permanentemente por uma corte inteira.

até que um dia percebeu algo terrível:

ninguém ali queria que o bobo saísse do castelo.

porque homens que permanecem emocionalmente presos jamais abandonam seus tronos familiares.

então clara foi embora.

não porque deixou de amar o bobo.

mas porque finalmente percebeu que algumas pessoas têm bom coração e mesmo assim destroem tudo ao redor por nunca aprenderem a ser livres.

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