a cigana sempre dizia que algumas histórias chegam na mesa antes mesmo de começarem no mundo real.
eu ria quando ela falava isso.
até começar a perceber que toda vez que ela abria as cartas sobre nós dois, parecia menos uma leitura e mais alguém narrando uma história que já existia em algum lugar invisível antes de existir aqui.
ela espalhava o tarot devagar, em silêncio, observando as cartas como quem escuta alguém falando baixo.
e então começava.
“esse menino sente muito.”
era sempre assim.
o rei de copas aparecia mostrando um homem profundamente emocional, mas perdido dentro da própria dificuldade de demonstrar tudo aquilo. o eremita vinha logo depois, como confirmação de alguém que se fecha quando o sentimento fica grande demais. o cavaleiro de paus atravessava a mesa impulsivo, intenso, apaixonado, mas instável emocionalmente. alguém que ama correndo, reage correndo, foge correndo.
e eu lembro da raiva que sentia quando ela dizia que o problema nunca foi falta de amor.
porque era mais fácil acreditar no vazio do que aceitar que alguém pode amar e ainda assim machucar tanto.
no baralho cigano, a lua aparecia quase sempre.
ela dizia que aquela carta falava sobre sentimentos profundos, conexão emocional forte, sensibilidade escondida. mas junto dela vinham as nuvens. pensamentos bagunçados. medo. insegurança emocional. como se ele passasse metade do tempo tentando entender o que sente e a outra metade tentando fugir disso.
e então ela olhava pra mim.
“você sente ele como se tivesse encontrado alguém que já conhecia espiritualmente.”
e eu odiava o quanto aquilo fazia sentido.
porque o dois de copas aparecia como uma conexão absurda. o diabo mostrava intensidade, apego, magnetismo emocional impossível de ignorar. o seis de copas trazia saudade antes mesmo da distância existir de verdade. parecia aquelas histórias em que duas pessoas se reconhecem emocionalmente rápido demais e acabam assustadas com a própria profundidade.
mas o mais estranho era ouvir como ele me via.
a estrela aparecia tantas vezes que começou a me assustar. ela dizia que ele me enxergava como alguém rara. alguém que trouxe luz pra partes dele que estavam apagadas há muito tempo. no cigano, o bouquet vinha reforçando admiração, encanto, carinho genuíno. como se ele realmente me olhasse com aquela sensação silenciosa de “essa menina mexe comigo de um jeito perigoso”.
e talvez mexesse mesmo.
porque junto da estrela vinha medo.
oito de copas.
sete de espadas.
os caminhos.
cartas de fuga emocional. indecisão. alguém que ama, mas entra em conflito interno quando percebe que amar também significa perder controle emocional.
e então aparecia eu.
não só como rainha de copas.
às vezes eu surgia como rainha de espadas.
e a cigana sorria pequeno quando aquilo acontecia.
“você ama profundamente, mas já começou a criar armadura.”
e era verdade.
a rainha de copas em mim queria acolher, entender, ficar, amar ele até nas partes mais difíceis. mas a rainha de espadas já estava cansada de sobreviver de silêncios, impulsos e dúvidas emocionais. ela queria respostas. coerência. maturidade.
e talvez tenha sido exatamente isso que criou a torre entre nós.
porque as cartas mostravam duas pessoas se amando profundamente, mas reagindo ao medo de formas diferentes. ele fugia. eu endurecia. ele se isolava. eu tentava cortar antes que doesse mais.
a cigana dizia que nenhum dos dois era frio.
os dois só estavam assustados.
e então veio o conflito.
as cartas ficaram pesadas naquela época. cinco de paus. torre. chicote no cigano. discussões, orgulho, ego ferido, palavras ditas no impulso. parecia que toda a conexão bonita tinha virado guerra emocional.
eu lembro de perguntar se aquilo tinha acabado.
e ela demorou muito pra responder.
embaralhou as cartas outra vez.
quando abriu de novo, a temperança estava no centro.
junto dela vieram os lírios e a âncora.
e ela sorriu daquele jeito tranquilo que sempre me irritava.
“vocês ainda estão aprendendo.”
eu queria finais definitivos. queria ouvir que sim ou que não. mas ela dizia que algumas histórias não terminam quando existe amor tentando amadurecer.
ontem, quando nos acertamos, eu lembrei imediatamente daquela leitura.
porque parecia exatamente aquilo.
menos guerra.
menos necessidade de vencer emocionalmente.
menos orgulho tentando proteger feridas.
pela primeira vez em muito tempo parecia que ele estava me olhando sem correr de si mesmo.
e talvez tenha sido isso que a espiritualidade inteira tentou mostrar desde o começo.
que o amor entre nós nunca foi ausência.
foi intensidade demais tentando aprender equilíbrio.
foi um menino emocionalmente confuso tentando entender a própria vulnerabilidade.
foi uma menina dividida entre a rainha de copas e a rainha de espadas tentando não deixar o amor destruir a própria luz.
e talvez a resolução do nosso conflito nunca tenha sido sobre virar perfeitos.
talvez seja só sobre finalmente entender que amar alguém não precisa ser uma batalha o tempo inteiro.
porque no fim de todas as leituras, depois de todas as cartas difíceis, depois de todas as fugas, silêncios e retornos, a cigana sempre parecia enxergar a mesma coisa na nossa mesa:
duas pessoas que se encontraram profundamente cedo demais.

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