ela não nasceu rainha de espadas.
isso é a primeira coisa que precisam entender sobre ela.
porque existe uma tendência cruel no mundo de olhar para mulheres que aprenderam a sobreviver e esquecer completamente do que precisou morrer dentro delas para que aquela sobrevivência existisse.
antes da espada, existia água.
antes da frieza calculada, existia doçura.
antes da fuga, existia permanência.
antes da mulher que corta primeiro para não ser destruída depois, existia uma menina que acreditava que amor significava aguentar.
a rainha de copas nasceu primeiro.
sensível.
intensa.
absurdamente amorosa.
o tipo de pessoa que transformava afeto em devoção sem nem perceber.
mas a rainha de copas foi criada dentro de castelos onde amor e medo dividiam a mesma mesa.
ainda princesa, aprendeu cedo que as próprias vontades não pertenciam totalmente a ela. viveu sob o domínio de um imperador que dizia amar enquanto destruía. um homem capaz de oferecer teto e ameaça na mesma frase. carinho e humilhação no mesmo dia.
e ela aprendeu a chamar isso de amor porque meninas aprisionadas raramente recebem dicionários corretos sobre violência.
ela aprendeu a pedir desculpas mesmo quando chorava.
aprendeu a silenciar desconfortos.
aprendeu a diminuir o próprio corpo para ocupar menos espaço emocional.
aprendeu a aceitar desrespeito porque sobreviver parecia mais urgente do que reagir.
e então vieram as guerras.
as brigas físicas.
os gritos.
as humilhações.
o medo constante de errar.
o desrespeito com o corpo dela, com os limites dela, com os desejos dela.
a princesa aprendeu cedo demais que algumas pessoas acham que amar alguém lhes dá posse sobre aquela pessoa.
e talvez a memória mais cruel de todas tenha sido a estrada.
dezesseis anos.
jogada para fora de um carro.
como se fosse descartável.
como se o amor pudesse simplesmente abrir a porta e expulsar alguém para o asfalto sem carregar culpa depois.
mas não foi a única vez.
a princesa também foi colocada para fora de casa.
duas vezes.
sem os sapatos.
sem dignidade.
sem proteção.
e ainda assim voltou.
porque a rainha de copas acreditava que amor sobrevivia a qualquer coisa.
até mesmo à destruição dela mesma.
e houve outra violência.
uma mais silenciosa.
mais difícil de nomear.
porque nem toda violência chega gritando.
algumas chegam travestidas de normalidade.
de obrigação.
de “é assim mesmo”.
de um desconforto que a princesa engolia porque acreditava que amar alguém significava ceder o próprio corpo também.
e o mais cruel é que ela sequer percebeu.
mesmo depois das espadas.
mesmo depois da fuga.
mesmo depois da liberdade.
ainda existiam partes dela incapazes de entender que o que viveu não era cuidado.
não era desejo compartilhado.
não era amor.
era invasão.
e existe algo devastador em perceber, anos depois, que algumas violências sobreviveram escondidas dentro de você mesmo após todas as guerras aparentemente vencidas.
porque a rainha de espadas conseguiu matar muita coisa.
matou a menina que aceitava migalhas.
matou a princesa que confundia sofrimento com amor.
matou a mulher que permanecia sentada em mesas onde era constantemente humilhada.
e pela primeira vez o caminho se abriu.
porque a rainha de espadas aprendeu algo que a rainha de copas nunca conseguiu:
quem corta primeiro sangra menos.
então ela passou a agir antes.
partir antes.
desconfiar antes.
erguer muralhas antes.
não porque gostava de ferir.
mas porque conhecia profundamente a sensação de ser destruída pelas mãos de quem dizia amá-la.
e mesmo assim, o imperador nunca a deixou completamente.
porque homens assim raramente suportam perder o controle sobre aquilo que um dia acreditaram possuir.
não importava que ela já não ocupasse mais aquele antigo trono.
não importava que agora existisse uma rainha de espadas capaz de arrancar a própria cabeça da tirania se tivesse oportunidade.
o imperador continuava perseguindo fantasmas.
continuava rondando as ruínas do castelo que ajudou a incendiar, tentando lembrar à antiga princesa quem ela tinha sido sob domínio dele.
e talvez essa tenha sido uma das maiores crueldades:
mesmo depois da liberdade, ela nunca teve o luxo de simplesmente esquecer.
porque sobreviver a certos homens não significa necessariamente escapar completamente deles.
alguns permanecem vivendo como ecos.
na memória.
nos reflexos automáticos.
na necessidade absurda de se defender antes mesmo que exista ameaça real.
e talvez seja por isso que a rainha de espadas ainda permaneça tão cansada.
porque existe uma diferença brutal entre sobreviver e realmente se sentir segura.
e apesar de todas as muralhas, apesar das guerras vencidas, apesar da força que todos enxergam nela…
a rainha de copas nunca morreu completamente.
isso talvez seja a parte mais bonita.
e também a mais triste.
porque apesar de todas as guerras, de todas as espadas erguidas para sobreviver, ela nunca conseguiu matar completamente a mulher que ama com profundidade absurda. a mulher que ainda acredita em conversa. em permanência. em segundas chances. em construir algo bonito mesmo depois da destruição.
a rainha de copas ainda vive nela quando o coração amolece.
quando ela imagina futuros sem perceber.
quando continua enxergando humanidade até em pessoas que a ferem.
quando tenta compreender antes de condenar.
ela ainda quer construir.
quer conversar.
quer trabalhar pelas relações.
quer acreditar que duas pessoas podem crescer juntas sem se destruírem no processo.
porque ao contrário do que pensam sobre mulheres que aprenderam a partir primeiro, ela nunca quis destruir o amor.
ela só queria viver um amor que não destruísse ela.
mas a rainha de copas já não é mais a mesma.
e talvez nunca volte a ser.
porque existe um ponto específico da dor onde amor deixa de ser suficiente para convencer alguém a permanecer.
a rainha de copas antiga suportava.
insistia.
esperava.
abria o próprio peito mais uma vez mesmo sangrando.
ela confundia resistência com amor.
sacrifício com lealdade.
destruição com profundidade emocional.
mas depois de tudo, alguma coisa mudou irreversivelmente.
a rainha de espadas não permite mais certas mortes.
não porque seja cruel.
não porque seja incapaz de amar.
mas porque ela conhece o preço de permanecer tempo demais em lugares que lentamente destroem a alma.
e é por isso que agora, mesmo quando a rainha de copas quer ficar… a rainha de espadas age primeiro.
ela fecha portas antes do abandono.
ergue muralhas antes da humilhação.
recua antes de implorar.
corta antes que alguém tenha novamente a chance de fazê-la acreditar que merece menos do que amor seguro.
às vezes isso dói nela também.
porque existe uma parte profundamente cansada de precisar sobreviver o tempo inteiro.
uma parte que queria descansar.
queria baixar as armas.
queria amar sem calcular riscos emocionais como quem atravessa território de guerra.
mas a rainha de espadas conhece coisas que a rainha de copas jamais conseguiu esquecer.
conhece o frio do asfalto aos dezesseis anos.
conhece o peso de ser colocada para fora sem os próprios sapatos.
conhece a humilhação de permanecer em lugares onde seu corpo, seus limites e sua dignidade nunca foram totalmente respeitados.
conhece o silêncio transformado em castigo.
conhece o abandono vestido de amor.
e depois de sobreviver a tudo isso, ela simplesmente não consegue mais insistir infinitamente em algo que a destrói.
nem que quisesse.
porque agora, antes mesmo da rainha de copas terminar de pedir para ficar…
a rainha de espadas já puxou a espada da bainha.
não para destruir os outros.
mas para salvar as duas.

Leave a comment