o problema é que tudo aconteceu rápido demais.
o cavaleiro de paus entrou na vida da rainha de copas e espadas como fogo atravessando madeira seca. intenso, impulsivo, magnético. daqueles encontros que chegam carregando urgência nos olhos e uma promessa silenciosa de que talvez, dessa vez, alguém finalmente fosse ficar.
em dois meses, ele já ocupava espaços nela que outras pessoas passaram anos tentando alcançar sem sucesso.
e talvez tenha sido exatamente isso que assustou os dois.
porque a rainha de copas nunca soube amar pela metade.
ela sentia tudo em excesso. transformava carinho em cuidado, presença em abrigo, conexão em profundidade. quando gostava de alguém, não gostava superficialmente. colocava a pessoa nas músicas que ouvia sozinha, nas cidades que sonhava conhecer, nos futuros pequenos e íntimos que construía sem perceber.
a rainha de copas dentro dela era macia.
queria construir.
queria compreender.
queria acolher até as partes quebradas de alguém.
era o tipo de mulher que sentava no chão ao lado da dor dos outros tentando ajudá-los a sobreviver a si mesmos.
ela não queria vencer guerras emocionais.
não queria erguer muralhas.
não queria aprender a ir embora.
ela só queria amar sem precisar se defender o tempo inteiro.
e principalmente:
ela queria trabalhar pela relação.
porque ao contrário do que o cavaleiro começou a acreditar nos momentos de raiva, a rainha nunca quis destruir o que existia entre eles.
ela pediu desculpas.
reconheceu projeções.
assumiu erros.
falou sobre terapia, sobre aprender, sobre crescer.
falou que relações exigem esforço dos dois lados.
falou que estava disposta a amadurecer junto.
porque a verdade é que a rainha de copas ainda era recém-coroada.
ainda era só um ser humano tentando aprender a amar sem deixar os próprios medos estragarem tudo.
tentando entender a si mesma enquanto também tentava entender outra pessoa igualmente cheia de rachaduras.
ela não era perfeita.
não era uma entidade emocional iluminada acima dos próprios traumas.
era apenas alguém tentando acertar.
e talvez tenha sido isso que mais doeu nela:
ser colocada na forca emocional tão rápido por alguém que dizia amá-la.
porque toda vez que o cavaleiro desaparecia, parecia que ela era condenada a esperar uma sentença invisível.
o silêncio dele tinha prazo próprio.
o tempo dele.
o limite dele.
a distância que ele considerava suficiente para respirar.
mas a rainha nunca soube quanto tempo duraria.
e é impossível não enlouquecer um pouco quando alguém que você ama simplesmente desaparece enquanto você fica parada tentando adivinhar se ainda existe relação do outro lado da tela.
ela não precisava que ele resolvesse tudo imediatamente.
não precisava que nunca mais sentisse raiva.
não precisava que ele não precisasse de espaço.
só precisava de humanidade.
uma mensagem.
um “não consigo conversar agora”.
um “preciso de tempo”.
qualquer coisa que a impedisse de passar horas sentindo o próprio peito afundar em abandono.
mas o cavaleiro continuava fugindo como se ausência fosse solução.
até o dia que a rainha de espadas assumiu o trono.
o corpo dela queimando de dor numa cadeira de pronto-socorro.
agulhas atravessando a pele.
o coração ainda procurando por ele.
e o cavaleiro escondido atrás do próprio silêncio outra vez.
foi ali que algo dentro dela mudou.
porque compreender alguém não impede a dor de destruir você.
e talvez essa tenha sido a maior tragédia de todas:
a rainha de copas nunca quis ir embora.
foi a rainha de espadas que percebeu que alguém precisava salvá-las.
então ela falou.
e dessa vez não havia grito.
não havia manipulação.
não havia ameaça vazia.
havia apenas verdade.
ela disse que o amava.
e era verdade.
disse que via bondade nele.
e era verdade.
disse que entendia seus mecanismos de defesa.
e também era verdade.
mas disse algo que atravessou a própria alma dela enquanto saía de sua boca:
“o seu silêncio me diminui.”
e talvez o cavaleiro tenha finalmente entendido.
talvez não.
a rainha já não sabia mais.
porque depois de tanto tempo tentando traduzir a própria dor para alguém que sempre fugia quando ela ficava grande demais, alguma coisa dentro dela cansou de esperar compreensão.
e o mais triste é que ela nunca quis se tornar a rainha de espadas.
nunca quis aprender a partir.
nunca quis aprender a endurecer.
nunca quis descobrir como sobreviver sem olhar para trás.
ela queria ter continuado sendo apenas a rainha de copas.
a mulher que ama.
a mulher que fica.
a mulher que acredita que carinho e conversa conseguem salvar qualquer coisa.
mas até rainhas de copas sangram demais quando passam tempo suficiente tentando abraçar alguém que transforma silêncio em muralha.
então a rainha de espadas puxou a cadeira até o trono.
não porque deixou de amar o cavaleiro.
mas porque finalmente amou a si mesma o suficiente para perceber que nenhum amor deveria exigir sofrimento contínuo como prova de permanência.

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