rabbit sempre fugia quando a conversa deixava de ser confortável.
não importava o quanto dissesse amar alguém.
não importava o quanto construísse planos, futuros, promessas improvisadas na madrugada.
quando chegava a hora de sustentar o peso emocional das próprias ações, rabbit desaparecia.
como se o silêncio pudesse apagar o estrago.
e talvez, no fundo, rabbit fosse exatamente aquilo que as cartas anunciavam sem piedade:
um homem dividido entre intensidade e imaturidade.
entre querer ser amado e não saber permanecer quando o amor exige responsabilidade.
a lua pairava sobre ele o tempo inteiro.
confuso.
contraditório.
emocional ao extremo.
refém das próprias inseguranças e interpretações tortas da realidade.
rabbit sentia muito, mas entendia pouco do que fazia com aquilo.
o carro mostrava sua impulsividade.
a necessidade desesperada de correr antes que alguém percebesse suas fraquezas.
agir primeiro.
sumir primeiro.
cortar laços primeiro.
como se abandonar alguém antes fosse menos doloroso do que correr o risco de ser abandonado.
mas rabbit nunca percebia que a fuga também é uma escolha cruel.
e toda vez que ele desaparecia sem responder, deixava do outro lado alguém encarando nuvens.
dias cinzentos.
ansiedade.
espera.
o peso humilhante de querer uma resposta simples de quem jurava se importar.
só que rabbit nunca percebeu quem era a pessoa que ficava esperando do outro lado.
ela era tartaruga.
não fraca.
não lenta por incapacidade.
apenas resistente.
dessas que continuam mesmo quando tudo dói.
dessas que carregam o próprio casco nas costas porque aprenderam cedo demais que o mundo nem sempre protege gente sensível.
a tartaruga esperou rabbit voltar inúmeras vezes.
esperou respostas.
esperou maturidade.
esperou o mínimo.
e enquanto rabbit corria em círculos dentro da própria confusão emocional, ela seguia caminhando.
devagar.
ferida.
às vezes chorando no meio do percurso.
mas seguindo.
porque a tartaruga entendia algo que rabbit nunca aprendeu:
quem ama de verdade não abandona a corrida toda vez que o caminho fica difícil.
rabbit carregava a força bruta do urso e a reatividade da foice.
explodia rápido.
se defendia rápido.
feria rápido.
mas depois vinha o eremita escondido dentro dele.
o homem que se fecha numa caverna emocional e transforma orgulho, medo e culpa em ausência absoluta.
e o mais irônico é que rabbit provavelmente acreditava estar sofrendo sozinho enquanto sumia.
a estrela ainda aparecia ao redor dele porque havia sentimento real.
havia afeto.
havia vontade.
mas a roda da fortuna girava sempre para o mesmo lugar:
o caos emocional criado pelas próprias mãos.
rabbit corria como no conto antigo do coelho.
rápido demais.
emocional demais.
confiante demais de que poderia voltar quando quisesse.
mas perdia todas as corridas importantes.
porque amor não é sobre intensidade momentânea.
é sobre permanência.
e no fim, foi a tartaruga quem venceu.
não porque deixou de amar.
mas porque aprendeu a continuar vivendo mesmo sem resposta.
aprendeu que silêncio demais vira desamor.
que ausência repetida vira escolha.
e que algumas pessoas passam tanto tempo fugindo de si mesmas que acabam perdendo justamente quem estava disposto a ficar.
rabbit fugiu.
a tartaruga não.
ela atravessou a linha de chegada sozinha.

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