às sete da manhã, o refeitório do prédio da faculdade parece um lugar suspenso no tempo.
as pessoas ainda falam baixo.
o café ainda tá forte demais.
as cadeiras arrastam devagar no chão.
e todo mundo parece meio incompleto antes da primeira aula.
foi nesse horário que nina me olhou por cima do copo de café e disse:
— você tá acabada. dormiu? tá com cara de quem nem tomou banho.
eu ri sem vontade.
— dormi sim.
— mentira.
ela falou isso sorrindo fraco, daquele jeito específico de melhores amigas que já conhecem até o jeito da outra mentir.
nina nunca foi o tipo de amiga que invade tristezas. ela só senta perto delas até que elas decidam falar sozinhas.
então a gente ficou ali.
comendo qualquer coisa.
vendo gente entrar e sair do refeitório.
fingindo normalidade.
até ela perguntar:
— é por causa dele ainda né?
assenti devagar.
— quer falar sobre?
— não.
e talvez aquilo fosse mentira.
nina sabe pouco.
fragmentos.
algumas madrugadas.
alguns surtos resumidos em frases rápidas.
porque existe um tipo específico de vergonha em admitir que alguém conseguiu atravessar lugares seus que quase ninguém alcança.
ela me observou em silêncio antes de rir fraco.
— sabe o que mais me assusta? você mudou completamente de ideia sobre ele.
franzi a testa devagar.
— no começo você falava dele como quem fala de um desastre pequeno. parecia muito “ah, isso aqui provavelmente não vai dar em nada, mas pelo menos vai render bons momentos”. e agora você parece a taylor swift escrevendo all too well de dez minutos sobre três meses.
acabei rindo baixo.
porque era verdade.
eu lembrava perfeitamente de falar aquilo.
como se ele fosse só mais um personagem bonito entrando temporariamente na minha vida.
nina apoiou o rosto na mão.
— e aí do nada você tava sorrindo o tempo inteiro. insuportável, inclusive.
ri outra vez, mais sincera agora.
— tô falando sério. eu olhava pra você naquela época e pensava “pronto, ela realmente achou alguém importante”.
o peito apertou devagar.
porque talvez eu também tivesse pensado isso.
ela ficou me olhando por alguns segundos antes de continuar:
— e eu acho que ele despertou coisas muito humanas em você.
desviei o olhar imediatamente.
— você sempre foi muito racional com relacionamentos. depois de tudo que aconteceu, até quando gostava de alguém parecia existir uma parte sua observando tudo de fora. mas com ele… sumiu.
o silêncio ficou confortável entre nós duas.
— eu sei que ele te trouxe adrenalina. caos. intensidade. e eu sei que no fundo você gostou disso também. você nunca gostou das coisas completamente certas e previsíveis.
não respondi.
porque talvez amar alguém que bagunçasse minhas certezas tivesse sido mais viciante do que eu gostaria de admitir.
nina suspirou antes de mexer distraidamente no café.
— e eu também sei que você evita falar muito dele pras pessoas porque não quer que ninguém fique com raiva dele. você quase não fala dele pra nenhuma de nós. nem pro seus pais. nem ninguém. eu sei que você tenta proteger a imagem dele.
levantei os olhos surpresa.
ela riu fraco.
— eu conheço você.
fiquei quieta.
porque ela tinha razão outra vez.
existia uma tentativa silenciosa de preservar a imagem dele dentro das pessoas que eu amava.
como se eu precisasse proteger o lugar onde ele ainda era bonito.
nina apoiou os cotovelos na mesa.
— mas vou te falar uma coisa meio estranha… esses textos fazem as pessoas se enxergarem neles. além de serem o portfólio que o professor disse que valia a pena você guardar. 
franzi a testa.
— principalmente as meninas. todo mundo lê e pensa em alguém. acho que no fundo até as meninas da nossa sala devem torcer secretamente pra vocês ficarem juntos porque dá pra perceber quando alguém escreve daquele jeito sobre uma pessoa específica.
dei risada pelo nariz.
— ninguém escreve daquele jeito sem estar apaixonada de verdade.
o refeitório começava a encher aos poucos enquanto ela continuava falando:
— e sinceramente? eu já te vi namorando. talvez você fosse até mais patética naquela época.
olhei indignada.
ela começou a rir.
— tô falando com carinho, calma. mas é diferente agora. porque dessa vez parece que você tá vivendo tudo num nível muito maior.
o silêncio caiu outra vez.
até nina suspirar mais baixo:
— só que eu me preocupo.
levantei os olhos.
— porque você tem sonhos muito grandes. ambições muito grandes. e às vezes eu fico pensando… uma pessoa pode acabar apagando isso em alguém sem perceber?
a pergunta ficou parada entre nós duas.
pesada.
porque amor nenhum deveria deslocar alguém de si mesmo.
mas existiam sentimentos tão intensos que começavam lentamente a mudar o eixo inteiro da vida.
nina mexeu distraidamente no copo vazio antes de falar de novo:
— porque você sempre teve energia de imperatriz. vou usar o tarot pra você entender o que eu tô falando.
franzi a testa sem entender.
— você sabe. aquela mulher que faz tudo crescer ao redor dela. que movimenta ambientes sem esforço. que faz as pessoas se sentirem vivas sem nem perceber. você sempre foi assim.
desviei o olhar imediatamente.
— e agora parece que você esqueceu disso porque tá emocional demais.
o silêncio ficou confortável outra vez.
até ela falar mais baixo:
— mas sinceramente? eu não acho que ele não sinta.
levantei os olhos devagar.
— só acho que ele sente completamente diferente de você. você externaliza tudo, sempre. ele parece guardar tudo até não caber mais.
engoli seco.
porque aquilo parecia dolorosamente verdadeiro.
— e às vezes eu acho que ele ficou assustado também — ela continuou. — porque perceber que alguém ama você num nível desse muda tudo. exige responsabilidade. exige maturidade emocional.
o refeitório já tava quase cheio agora.
gente rindo alto.
professor passando.
mochilas no chão.
e ainda assim parecia existir uma bolha silenciosa ao redor da nossa mesa.
nina ficou mexendo distraidamente no anel do dedo antes de suspirar:
— mas vou te falar uma coisa que talvez soe meio maluca.
olhei pra ela.
— eu acredito muito que às vezes existe alguma coisa separando duas pessoas de propósito.
franzi a testa.
— não porque elas não se amam. mas porque do jeito que estão naquele momento… poderiam acabar destruindo uma à outra sem querer.
o peito apertou lentamente.
— aquele dia eu vi como você ficou decepcionada. mas parecia mais desespero pra ele te notar do que vontade real de ir embora. eu sabia que você ia tentar fugir naquele dia. mas também sabia que, no fundo, você queria ficar e tava tentando só acordar alguma reação dele.
como ela me conhecia tanto assim?
— vocês dois me parecem muito isso às vezes — ela falou mais baixo. — duas pessoas que se gostam de verdade, mas ainda não sabem lidar com o tamanho do que sentem. nunca passei por isso, mas deve até ser legal sentir tanto.
fiquei quieta.
porque talvez aquela fosse a definição mais triste e mais bonita de todas.
nina terminou o café antes de me olhar pela última vez.
— mas sabe de uma coisa? eu acho que agora você finalmente tirou o peso das costas.
franzi a testa devagar.
— você falou tudo. foi honesta. explicou dor. pediu desculpas. abriu o coração de verdade. e sinceramente? conhecendo você, eu fiquei surpresa com o quanto você amadureceu emocionalmente nisso tudo.
o silêncio ficou estranho.
leve e triste ao mesmo tempo.
eu olhei com uma cara de, quem te contou o que eu fiz?
e ela entendeu.
— eu escutei você gravando uns áudios, foi totalmente sem querer — ela continuou mais baixo. — e eu acho que foi ali que eu fiquei orgulhosa de você. porque pela primeira vez você não tentou parecer fria, superior ou inalcançável. você só foi humana. totalmente humana.
desviei o olhar imediatamente.
— mas agora a parte dele começa — ela continuou. — ele vai resolver isso da forma que achar melhor. no tempo dele. do jeito dele. e você não tem mais controle sobre isso. você mesma já falou isso pras nossas amigas mil vezes.
desviei o olhar pro celular virado pra baixo na mesa.
— e eu sei que isso te desespera. mas talvez amor também seja isso às vezes. falar a verdade e depois aceitar que o outro é livre pra fazer o que quiser com ela.
fiquei quieta.
porque talvez aquela fosse a parte mais difícil de todas.
não amar.
não sofrer.
não esperar.
mas aceitar que depois de entregar o coração inteiro pra alguém, não existe mais nada a fazer além de esperar pra descobrir o que aquela pessoa vai decidir fazer com ele. deve ser assustador ter que lidar com essa responsabilidade.

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