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it´s just me

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o pronto socorro tinha aquela luz branca cruel que não acolhe, só expõe. tudo parecia duro demais, a cadeira, o silêncio, o jeito que o tempo não passava.

ana bia estava ali sozinha.

sozinha de um jeito que não deixa dúvida. sem mensagem, sem preocupação, sem ninguém aparecendo na porta. como se ela nunca tivesse sido importante o suficiente pra alguém ficar.

o corpo doía, ardia, incomodava. a infecção urinária lembrava o tempo inteiro que até o físico cobra descuido. mas, ainda assim, não era isso que mais machucava.

era o resto.

porque ana bia sabia que tinha errado.

ela sabia que tinha projetado coisas do passado que não deveriam ter caído ali. medos antigos, padrões antigos, coisas que não eram exatamente sobre aquele momento, mas que acabaram sendo colocadas ali mesmo assim. e ela percebeu. ela entendeu.

e ela falou.

engoliu o orgulho, tentou explicar, tentou organizar o que sentia, tentou assumir o que era dela.

mas ele não deu espaço.

não deu tempo.

não deu chance.

ele foi grosso, direto, como se tudo que ela estivesse tentando dizer não tivesse valor nenhum. disse que tinha vontade de mandar ela pro caralho, como se aquilo resolvesse alguma coisa. como se aquilo não tivesse peso.

e depois disso veio o corte.

ele a removeu de tudo.

apagou qualquer possibilidade de continuidade, de conversa, de ajuste. e, no pouco que ainda restou, tratou ela como se fosse descartável. como se fosse simples reduzir alguém a nada depois de tudo.

isso também é escolha.

ana bia ficou ali, olhando pro nada, enquanto o corpo também cobrava.

três injeções no mesmo dia agora.

três vezes lidando com dor real, física, concreta, enquanto ele estava na casa dele, vivendo como se nada tivesse acontecido, sem mover um dedo, sem sustentar absolutamente nada do que tinha começado.

não era só ausência.

era indiferença.

e isso pesa mais do que qualquer discussão.

não era só tristeza.

não era só decepção.

era uma revolta mais silenciosa, mais lúcida.

porque ela reconheceu o erro dela. ela tentou voltar atrás. tentou fazer diferente no mesmo momento.

e, ainda assim, foi tratada como se não fosse nada. de novo.

tem coisas que não são só sobre quem errou.

são sobre como o outro escolhe reagir. ou voltar atrás. ou ser humano.

e ali, naquela cadeira, com o corpo pedindo cuidado e a cabeça tentando entender o que tinha acabado de acontecer, ana bia percebeu que não era só o fim de uma discussão.

era o fim de qualquer espaço seguro ali.

ela não queria mais entender.

não queria mais justificar.

não queria mais tentar enxergar o lado dele. ou dela.

o que ficou foi uma recusa firme.

e um pensamento difícil de admitir, mas honesto, que talvez um dia ele também entenda o peso de tratar alguém assim. talvez alguém que ele ama muito. não por maldade gratuita, mas porque algumas coisas só fazem sentido quando voltam.

o corpo ia melhorar. eventualmente.

ela sabia.

mas o que ficou dentro dela não se resolve com remédio.

isso fica como marca.

e, dessa vez, como limite. um limite que nunca mais ela vai deixar ser cruzado.

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