eu andei pensando se existe alguma força
observando tudo isso de longe,
como se a minha vida fosse uma história já escrita
e eu só estivesse interpretando mal o papel
porque não é possível que seja só coincidência
eu vejo as outras pessoas encontrando o que parece leve
simples, quase natural
como se o amor fosse um lugar onde elas chegam
sem precisar implorar por direção
e eu sempre paro na porta
é como se tivesse algo errado no pedido que eu faço ao universo
como se, toda vez que eu estendo a mão
algo viesse parecido
mas nunca certo
quase
sempre quase
eu não peço muito
nunca pedi
só alguém que fique
quando ficar não for mais fácil
alguém que não transforme carinho em disputa
alguém que não me faça duvidar daquilo que eu senti desde o começo
mas parece que tem alguma coisa desalinhada
um detalhe mínimo, invisível
que muda tudo
como se eu estivesse destinada
a aprender sempre a mesma lição
com rostos diferentes
e eu juro que tento entender
reviso cada palavra
cada atitude
cada versão de mim que existiu dentro dessas histórias
procuro o erro como quem procura uma falha num sistema
um ponto específico onde tudo desanda
onde eu poderia ter feito diferente
mas, no fim, a sensação é outra
não é sobre o que eu faço
é sobre o que me acontece
e isso assusta mais
porque, se é assim
então não tem muito o que corrigir
não tem muito o que consertar
não tem fórmula, não tem ajuste fino
só tem repetição
às vezes eu queria negociar com o destino
como se fosse possível pedir uma troca
uma pausa
ou até só uma explicação
qual é exatamente a minha parte nisso tudo
porque amar nunca foi o problema
sentir nunca foi o problema
o problema é que, no meu caso
isso sempre vem acompanhado de um prazo invisível
de um desgaste que chega antes do tempo
de um fim que eu já começo a prever
quando ainda estou no começo
e ainda assim, eu continuo tentando
como se, em algum momento
essa história fosse sair do roteiro
como se, por um acaso improvável
o final fosse outro
mas até lá
eu sigo com essa sensação estranha
de estar presa em uma profecia
que ninguém me contou
mas que eu aprendi a reconhecer
cada vez que tudo começa a dar certo
porque é exatamente aí
que eu sei
que está prestes a dar errado
the end.

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