não aconteceu nada que pudesse ser apontado
não com precisão
um comentário, talvez
as que cabem sem esforço na categoria do irrelevante
e ainda assim, ficou
não como fato
mas como uma lembrança que não precisa ser chamada pelo nome
porque o corpo reconhece antes
há tons que não enganam
mesmo quando ainda não dizem tudo
não é sobre agora, exatamente
é sobre o que costuma vir depois
o acúmulo discreto
as frases que não chegam a ser confronto
mas também nunca são só palavras
há um tipo de comentário que não pesa sozinho
ele se sustenta na repetição
e é aí que começa a medida
não do que foi dito
mas do que pode voltar a ser
porque algumas coisas não precisam se repetir inteiras
um gesto já antecipa o resto
não como certeza
mas como possibilidade suficiente
e o incômodo não vem do episódio
vem da lembrança de como termina
do que se acumula sem nome
até ganhar peso
e, quando ganha
já não se trata mais de uma frase
mas de como ela se instala
e do lugar que ela abre
aos poucos
para aquilo que ninguém quer voltar a ocupar
nada disso é uma certeza
mas abriu uma possibilidade grande demais
grande o suficiente
para fazer dar alguns passos para trás
não pelo que já é
mas pelo que pode vir a ser

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