isadora nunca soube explicar exatamente de onde vinha essa sensação
não era um incômodo pontual
nem um desejo passageiro
era mais fundo que isso
como se, desde sempre, ela estivesse em um lugar que não era totalmente dela
como se o corpo estivesse aqui
mas a vida… não
isadora anda pelas mesmas ruas, escuta as mesmas conversas, vê os mesmos cenários se repetindo
e tudo funciona
tudo segue
tudo existe como deveria
mas, dentro dela, falta encaixe
não é sobre odiar
é sobre não reconhecer
como se estivesse sempre um pouco deslocada
um pouco fora de sintonia
como uma música bonita tocando no tom errado
e talvez seja por isso que ela nunca tratou a Inglaterra como um sonho distante
porque, pra ela, não é teoria
ela já esteve lá
duas vezes
e, nas duas, algo dentro dela fez sentido de um jeito que nunca tinha feito antes
não foi perfeito
não foi mágico o tempo inteiro
mas foi real
isadora se sentiu viva
leve
como se o mundo não estivesse o tempo todo exigindo que ela se explicasse
como se, finalmente, ela pudesse existir sem precisar se adaptar o tempo inteiro
lá, ela andava com a sensação de que poderia ser qualquer coisa
de que, se conseguisse ficar
se conseguisse se estabilizar
o resto viria
qualquer coisa viria
e isso nunca aconteceu aqui
porque aqui, mesmo quando tudo parece suficiente
nunca parece certo
mas isadora também sabe de uma coisa que pesa quase tanto quanto o sonho
ela não pode ir vazia
ela entende, mesmo que doa admitir
que precisa construir daqui aquilo que quer levar pra lá
precisa criar base
precisa desenvolver o que ama
precisa transformar o sonho em algo que consiga atravessar fronteiras
e, ainda assim
isso não muda o fato mais difícil de todos
isadora sabe que não aceitaria ficar
não como destino
não como vida inteira
não como aquilo que ela vai olhar daqui a anos e chamar de escolha
ficar, pra ela, não é estabilidade
é renúncia
é acordar todos os dias com a sensação de que algo ficou pelo caminho
e ela já sabe como isso dói
por isso, no meio desse conflito
existe uma tensão silenciosa
entre o agora e o depois
entre construir e partir
entre ter paciência e não se acomodar
porque ela não quer romantizar a saída
mas também não quer normalizar a permanência
e no meio disso tudo
existe o outro sonho
aquele que não depende de país
mas que, ainda assim, parece respirar melhor longe daqui
cantar
não por fama
não por dinheiro
mas por sentido
porque quando isadora canta
ela não está deslocada
não está tentando caber
não está errando o tom da própria vida
ela está exatamente onde deveria estar
e talvez seja isso que ela esteja tentando levar com ela
quando pensa em ir
não só a versão de um lugar
mas a versão de si
uma versão que constrói agora
mesmo com dúvida
mesmo com medo
mesmo sem saber exatamente quando vai conseguir sair
isadora não está esperando a vida começar lá
ela está começando aqui
com tudo que tem
com tudo que consegue
mas com uma certeza que não muda
isso aqui não é o final
é só o caminho
porque tem gente que sonha em encontrar um lugar
e tem gente que, como isadora
já encontrou
e só está tentando descobrir
como voltar de vez

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