isabella nunca teve medo de sentir
o medo sempre veio depois
quando o sentimento começava a pedir espaço na vida real
porque sentir, pra ela, nunca foi pequeno
vinha com planos, com imagens, com uma ideia muito clara de como as coisas deveriam ser quando duas pessoas realmente querem
e agora ela está ali
no meio de algo que ainda não tem nome
mas que, pra ela, já ocupa lugar demais
isabella observa o mundo como quem tenta aprender um manual que ninguém nunca escreveu
casais passam fins de semana juntos, não é?
feriados também
dão um jeito de se ver, de estar, de construir alguma coisa que vá além de mensagens e promessas vagas
é assim que funciona, não é?
ou talvez isso só aconteça quando já é sério
e então ela trava
porque, pra ela, já parece ser
mas e se não for pros dois?
a dúvida não vem de uma vez só
ela se infiltra
devagar
quase educada
será que estou me precipitando?
será que estou me entregando sozinha?
isabella não quer implorar por presença
não quer ser a pessoa que cabe só quando sobra tempo
não quer ter que pedir o mínimo como se fosse demais
ela acredita que quando alguém quer
prioriza
mesmo no meio da rotina
mesmo quando é mais fácil não fazer nada
mas e se ela ainda não for essa escolha?
e é aí que o medo muda de forma
deixa de ser sobre dar errado
e vira algo mais silencioso
o medo de nunca ter sido levado a sério o suficiente pra existir de verdade
porque isabella já está envolvida
mesmo sem rótulo
mesmo sem definição
já tem peso
já tem expectativa
já tem afeto suficiente pra doer
e doeria sair agora
porque, pra ela, não é pouco
mas também dói ficar
quando ficar começa a parecer espera
e no meio disso tudo
surge outra dúvida
tão concreta que quase desmonta o resto
isabella sempre foi de ir
de sair, de conhecer lugares, de testar restaurantes novos
de dividir a conta quando vale a experiência
de viajar, de ocupar o mundo como quem entende que viver não cabe só em um lugar
e se ele não gostar de nada disso?
se, pra ela, viver é movimento
e pra ele, é permanência
pra onde ela vai?
isabella tenta imaginar um futuro onde ela diminui
onde deixa de sugerir
onde para de insistir
onde começa a aceitar menos do que gosta só pra manter alguém por perto
e a imagem incomoda mais do que qualquer possível término
porque ela não quer arrastar ninguém
não quer convencer alguém a viver
não quer transformar o que pra ela é natural em algo que precisa ser negociado o tempo todo
ela sabe que relacionamentos exigem concessões
mas também sabe, mesmo que ainda esteja tentando aceitar
que existe um limite
um ponto em que ceder deixa de ser construção
e vira abandono de si
e então as perguntas se acumulam
quanto tempo é tempo suficiente pra entender?
o que ainda falta ver?
o que ainda falta acontecer pra ela ter certeza?
e se ela estiver errada de novo?
se estiver, mais uma vez, acreditando em algo que só existe do lado dela?
às vezes, se fechar parece uma saída
mais fácil
mais segura
como se não sentir fosse proteger
mas isabella sabe que não é tão simples
porque não viver também dói
só que de um jeito mais silencioso
mais difícil de explicar
no fim, ela percebe que não está pedindo tanto quanto parece
ela não quer alguém idêntico
não quer alguém perfeito
não quer alguém que faça tudo igual
ela quer alguém que queira
que queira estar
que queira ir
que queira construir
que, quando pode, escolhe
sem que isso pareça esforço
sem que isso pareça concessão
e talvez a única coisa que isabella precise fazer agora
não seja decidir
nem fugir
nem se jogar mais ainda
mas observar
quem aparece
quem sustenta
quem caminha junto
porque, no meio de tanta dúvida
existe uma verdade que ela tenta não ignorar
o que é recíproco não precisa ser adivinhado
e o que custa o seu mundo inteiro
quase nunca vale a permanência
e isabella não nasceu pra caber
ela nasceu pra viver

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