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it´s just me

A porta entreaberta

Pensei muito em como começar este texto. Pensei muito, também, no título dele.

Cheguei a me convencer de que jamais escreveria uma palavra sequer sobre essa história, sobre você, sobre memórias que às vezes parecem ter sido fabricadas na minha própria cabeça. Nunca mais, eu disse a mim mesma.

Eu queria conseguir arrancar da sua mente cada palavra minha que você já leu, cada coisa que já fiz por você, cada pedaço de mim que ficou aí guardado. Como isso não é possível, deixo tudo exatamente onde está, torcendo, com uma devoção que nem eu entendo direito, para que isso, de algum jeito, te assombre.

Eu sempre soube quem eu era antes de você. Sabia o tamanho da mulher que sou, o tamanho dos meus sonhos, a minha capacidade quase absurda de amar e, principalmente, de superar. Você sabe disso também.

Passei boa parte do tempo que tivemos sendo, provavelmente, a pessoa que mais te enxergou como alguém incrível. A que mais acreditou no que você poderia ser, no que existia atrás de tudo aquilo que você fazia questão de esconder.

Acontece que incrível sou eu.

Eu, que nunca tive medo de amar. Nunca tive medo de falar. Nunca tive medo de errar, e muito menos de me responsabilizar pelos meus erros. Nunca me acovardei diante do que sentia. Isso também você sabe.

Muitos dos meus dias com você me deixavam numa mistura de ânsia, raiva e amargor. Era desesperador olhar para alguém parado diante da própria vida. Alguém que prometia, ouvia, entendia, mas nunca fazia.

Como se vive amando alguém sem coragem de se entregar por inteiro ao que sente? Eu nunca vou te entender. E hoje eu não perderia mais um terço do meu tempo tentando.

Tem uma música da Olivia Rodrigo, “less”, que fala sobre alguém preferir ir embora a ficar e encarar o que amar de verdade exige. Fui ouvir essa faixa numa dessas noites em que fiquei esperando uma mensagem que não veio, e me peguei pensando: é exatamente isso.

Você nunca escolheu ficar. Escolheu, sempre, a saída mais fácil, sumir em vez de se explicar, deixar pra depois em vez de se responsabilizar, ir embora em vez de arcar com o peso de amar alguém por inteiro. E eu continuei tão apaixonada quanto no primeiro banco de concreto, o que só tornou cada sumiço, cada promessa adiada, mais difícil de engolir.

Não quero te demonizar. Não escrevo isso para expor seus demônios a algum tipo de exorcismo, até porque amei cada um deles também.

Mas naquele dia no banco, e em tantos outros que vieram depois, eu avisei: eu sempre vou embora.

E eu vou.

Eu vivo depois de morrer, sempre.

Vou depois de tentar demais, depois de insistir até não reconhecer mais a diferença entre persistência e humilhação, depois de dar a cara a tapa tantas vezes até entender, enfim, que amar alguém jamais deveria significar viver levando tapa.

Sei também que você sabe: até hoje, ninguém te viu como eu vi. Não a versão que você mostra quando é conveniente, não o que você tenta parecer. Eu vi você de verdade.

Isso, porém, fica entre nós.

Tenho raiva de você, sim. Raiva de ter feito tanto. Raiva de ter deixado essa balança ficar tão desequilibrada. Raiva de ter perdido tempo esperando uma atitude de quem não consegue nem se impor por amor a mim.

Você se esconde. Fica preso dentro da própria cabeça e adia por semanas, meses, tudo que importa, como se o tempo tivesse a obrigação de esperar até você criar coragem.

Mas fingir que não tem coração não faz ele desaparecer. E talvez seja isso o que mais me irrita em você: eu sei que ele está aí.

A minha porta continua entreaberta. Não porque eu não saiba ir embora, mas justamente porque sei. Ela continua assim pela pessoa que eu sou, pela minha recusa em aceitar um fim tão vexatório para algo que significou tanto, e talvez por uma última esperança de que, pelo menos uma vez, você tenha coragem de fazer alguma coisa antes que seja tarde.

Mas uma porta entreaberta não é uma porta eternamente aberta.

Tenho certeza de que você ainda vai passar por ela algumas vezes, nem que seja só dentro da sua própria cabeça, até o dia em que perceber que ela se fechou. E, quando perceber, pode ser tarde demais para bater.

Aquela menina dos bancos de concreto, feliz em te deixar entrar no meu mundo, já perdeu metade daquela luz toda. É pouca luz diante de uma decepção desse tamanho.

Mas ainda está aqui. E isso diz muito mais sobre mim do que poderia dizer sobre você.

Termino este texto sabendo que tudo que eu podia fazer, sempre fiz. Sempre que machuquei alguém, estive ali, encarando o peso de ter ferido quem me ama.

Não nasci para me esconder. Não nasci para morrer com palavras entaladas na garganta e o peso de ter errado,

e me calado.

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