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it´s just me

As mulheres que deixei para trás

Às vezes me perguntam quantas pessoas eu amei.

Eu nunca sei responder.

Porque, se amar é também imaginar um futuro, então eu amei muito mais do que as pessoas que passaram pela minha vida.

Amei apartamentos que nunca aluguei.

Domingos que nunca aconteceram.

Filhos que nunca tiveram nome.

Viagens que ficaram no papel.

Mesas de restaurantes que nunca mais seriam ocupadas pelos mesmos dois lugares.

Amei versões inteiras de um amanhã que nunca chegou.

E, quando fui embora, precisei abandoná-las também.

As pessoas costumam acreditar que quem termina uma história simplesmente decide partir.

Como se fosse uma escolha feita numa tarde qualquer.

Como se bastasse fechar uma porta.

Mas ninguém vê quantas vezes alguém decide ficar antes de finalmente ir embora.

Ninguém vê quantas conversas antecedem um adeus.

Quantas noites em claro.

Quantas promessas recebem mais uma chance.

Quantas vezes a gente escolhe acreditar, mesmo quando já começou a desconfiar.

Porque ninguém parte de repente.

A gente vai embora aos poucos.

Primeiro deixa de contar algumas coisas.

Depois deixa de esperar.

Depois percebe que já não consegue reconhecer a própria voz.

Até que um dia entende que continuar também pode ser uma forma de abandono.

E talvez essa seja a parte mais difícil de explicar.

Eu abandonei pessoas.

É verdade.

Mas, antes disso, abandonei inúmeras versões de mim tentando não abandoná-las.

Abandonei a menina que acreditava que amor sempre bastava.

A mulher que achava que insistir era uma prova de maturidade.

A que transformava necessidades em pedidos.

A que diminuía a própria dor para parecer compreensiva.

A que pedia desculpas por sentir.

A que acreditava que, se explicasse mais uma vez, finalmente seria entendida.

Durante muito tempo, achei que escolher a mim mesma seria um gesto bonito.

Hoje sei que não.

É um luto.

Porque você continua amando enquanto arruma as malas.

Continua desejando que dê certo enquanto aceita que não vai dar.

Continua imaginando como seria a vida se, dessa vez, o outro tivesse caminhado na mesma direção que você.

Há quem pense que quem vai embora leva apenas uma mala.

Não leva.

Leva casas que nunca existiram.

Datas que nunca chegaram.

Objetos que nunca foram comprados.

Versões inteiras de uma vida que morreram antes mesmo de nascer.

Às vezes me perguntam quantas pessoas eu perdi.

E, honestamente, acho que perdi menos pessoas do que mulheres.

A menina que acreditava que tudo era para sempre.

A adolescente que tinha medo de ficar sozinha.

A jovem que confundia esforço com amor.

Todas elas ficaram pelo caminho.

E talvez fosse inevitável.

Porque crescer também é aceitar que algumas versões de nós não cabem na vida que queremos construir.

Hoje ainda sinto saudade.

Saudade de pessoas.

De lugares.

De momentos.

De futuros que nunca existiram.

Mas existe uma saudade que já não sinto mais.

A saudade de mim.

Durante muito tempo fui embora de mim mesma para que outras pessoas permanecessem na minha vida.

Agora entendo que, daqui a algum tempo, será a minha vez de partir.

Não amanhã.

Nem no próximo mês.

Talvez ainda demore um pouco.

Mas eu sei que vou.

Vou atravessar um oceano.

Vou aprender a chamar outra cidade de casa.

Vou descobrir ruas que nunca percorri.

Sentar em bancos onde ninguém conhece a minha história.

Tomar café olhando pela janela e perceber que, pela primeira vez, a paisagem não terá nenhuma lembrança esperando por mim.

E existe algo profundamente bonito nisso.

Porque eu jamais vou ficar.

Não digo isso com tristeza.

Nem como quem foge.

Digo como quem finalmente entendeu que nasceu para continuar caminhando.

Que algumas pessoas criam raízes.

Outras criam asas.

E eu passei tempo demais tentando fincar raízes em lugares onde já não conseguia florescer.

Um dia vou voltar.

Talvez passe pelas mesmas ruas.

Pela faculdade.

Pelos restaurantes.

Talvez encontre pessoas que conheceram uma versão antiga de mim.

E espero que elas a encontrem apenas na memória.

Porque a mulher que embarcar naquele avião não será mais aquela que tinha medo de partir.

Ela saberá que deixou pessoas importantes.

Que amou de verdade.

Que chorou despedidas que ninguém viu.

Mas também saberá que, pela primeira vez, não está indo embora de si.

Está indo ao encontro de quem sempre quis ser.

E talvez essa seja a maior diferença entre todas as despedidas que vivi.

Antes, eu partia porque alguma coisa tinha acabado.

Da próxima vez, eu partirei porque alguma coisa, finalmente, estará começando.

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