Crônica sobre um imperador sem império, um ego sem grandeza e uma mulher que finalmente se lembrou do próprio tamanho.
Conheci um homem quatro anos mais velho que eu. Quatro anos. Quarenta e oito meses. Quase mil e quinhentos dias de vantagem sobre a minha existência. Tempo suficiente para aprender um idioma, construir uma carreira, atravessar continentes ou, na mais modesta das hipóteses, desenvolver alguma inteligência emocional.
Ele, aparentemente, decidiu desperdiçar a vantagem.
Era um homem pequeno. Não fisicamente, porque seria injusto responsabilizar a anatomia por uma falência tão evidentemente moral. Era pequeno nas atitudes, na coragem, na capacidade de sustentar uma conversa sem transformar qualquer discordância numa ameaça à própria masculinidade.
Tinha idade de adulto, orgulho de imperador e maturidade de criança contrariada.
E, como todo pequeno imperador, acreditava que o mundo lhe devia reverência.
Era machista daquela maneira particularmente constrangedora: queria uma mulher inteligente, desde que ela não o contrariasse. Independente, desde que sua independência não ameaçasse o trono imaginário. Bonita, desde que ninguém mais percebesse. Livre, desde que pedisse licença.
A liberdade feminina lhe parecia uma ofensa pessoal. Não bastava ser amado; precisava ser obedecido. Não bastava ter uma companheira; precisava ter a última palavra. E, quando não conseguia controlar a situação, transformava o próprio desconforto numa acusação.
Seu ciúme era uma espécie de espetáculo particular. Um colega de faculdade aceito numa rede social podia provocar uma crise de proporções históricas. Uma opinião contrária sobre um jogador de futebol adquiria a gravidade de uma ofensa pessoal.
Napoleão, ao menos, tinha exércitos.
O meu pequeno imperador tinha birras.
E pensar que aquele homem se aproximava dos trinta anos.
A idade avançava com uma disciplina admirável. A maturidade, infelizmente, parecia ter perdido o endereço. Ele nunca se mediu em medida nenhuma de homem.
Sua especialidade era desaparecer. Quando precisava conversar, sumia. Quando precisava reconhecer um erro, endurecia. Quando precisava demonstrar responsabilidade, refugiava-se num silêncio que julgava imponente.
Era uma covardia cuidadosamente fantasiada de racionalidade.
Gostava de parecer frio, decidido, superior. Acreditava que falar pouco o tornava profundo e que deixar uma mulher sem resposta demonstrava algum tipo de poder.
Mal sabia ele que até uma porta fechada consegue permanecer em silêncio. Nem por isso alguém a confunde com um grande pensador.
Era impressionante sua capacidade de exigir maturidade enquanto oferecia o comportamento de uma criança de cinco anos. Queria respeito sem reciprocidade, confiança sem transparência, compreensão sem autocrítica.
E, sobretudo, queria ser tratado como um grande homem sem realizar o trabalho necessário para se tornar um.
Havia nele uma coleção particularmente curiosa de características começadas pela mesma letra: prepotente, possessivo, presunçoso, pueril, provocador e profundamente preocupado com as aparências.
Um pequeno catálogo de palavras com P.
Faltava-lhe apenas uma: progresso.
E havia algo quase cômico em sua relação com a ideia de superioridade intelectual.
Afinal, o pequeno imperador pretendia exercer o Direito.
Reprovado não só na vida. Vergonhoso é não aprender a reconhecer as próprias limitações e, ainda assim, comportar-se como se fosse uma autoridade incontestável.
Era uma ironia irresistível: um aspirante a advogado que parecia desconhecer o direito de uma mulher discordar dele.
Um futuro defensor de argumentos incapaz de sustentar os próprios.
Um homem interessado nas leis, mas que governava suas relações por decretos de insegurança.
Se existisse um exame de responsabilidade afetiva, suspeito que ele ainda estaria tentando compreender o enunciado.
E, mesmo assim, achava-se um prêmio.
Pobre criatura.
Seu ego era uma mansão construída sobre um terreno condenado. A arrogância ocupava a sala principal, a insegurança dormia no quarto e a covardia havia tomado posse dos corredores. A responsabilidade afetiva, aparentemente, jamais recebera autorização para entrar.
Era também um excelente contador de histórias. Sobretudo daquelas em que saía como protagonista injustiçado.
Quando a relação terminou, por exemplo, resolveu apresentar-se como o autor da decisão.
Ele havia terminado.
Ele havia escolhido.
Ele havia dispensado.
Quase pude ouvir as trombetas anunciando a vitória de Sua Majestade.
O problema é que eu já havia ido embora.
Fui eu quem encerrou aquela relação no dia em que, em pleno expediente de trabalho, precisei interromper minhas responsabilidades para lidar com mais uma sucessão de discussões estúpidas, inseguranças mal administradas e assuntos que jamais deveriam ter ultrapassado a gravidade de uma conversa banal.
Naquele instante, compreendi que havia algo profundamente absurdo em desperdiçar minha juventude tentando ensinar decência a alguém quatro anos mais velho.
Eu trabalhava, estudava, escrevia, construía uma carreira e cultivava ambições. Tinha livros para ler, histórias para contar e um futuro que não poderia ser reduzido aquela criança.
Enquanto eu me preocupava com meu futuro, ele parecia empenhado em defender a honra de um jogador de futebol.
Enquanto eu procurava crescer, ele procurava culpados.
Enquanto eu construía uma vida, ele construía versões.
Não éramos equivalentes.
Eu tinha sonhos. Ele tinha desculpas.
Eu tinha coragem de conversar. Ele tinha a habilidade de desaparecer.
Eu tinha maturidade para reconhecer minhas contradições. Ele tinha orgulho suficiente para jamais reconhecer as dele.
E pensar que era quatro anos mais velho.
Quatro anos de vantagem cronológica para não demonstrar sequer um terço da maturidade que exigia de mim.
Era preciso um talento extraordinário para transformar tamanha diferença de idade numa desvantagem tão evidente.
Mas talvez sua maior habilidade fosse mentir para si mesmo.
Não necessariamente por meio de grandes invenções, mas daquelas pequenas falsificações da realidade que permitem a alguém continuar se admirando diante do espelho.
Omitir. Distorcer. Inverter responsabilidades.
Transformar covardia em prudência, crueldade em sinceridade, silêncio em maturidade e rejeição em escolha.
Era um artista da própria absolvição.
Um homem que desejava tanto parecer superior que nunca encontrou tempo para se tornar melhor.
Durante algum tempo, cometi o erro de procurar grandeza nele.
Confundi potencial com realidade. Imaginei que por trás da arrogância existisse uma inteligência incompreendida, que por trás da frieza houvesse profundidade e que por trás dos desaparecimentos existissem conflitos emocionais dignos de alguma compreensão extraordinária.
Eu procurava ouro onde sequer havia latão.
E talvez o mais constrangedor seja perceber que precisei explicar coisas que deveriam ser óbvias para alguém quatro anos mais velho.
Não se controla uma mulher por ciúme.
Não se pune alguém com silêncio.
Não se transforma uma opinião diferente numa declaração de guerra.
Não se reescreve a realidade apenas porque a verdade fere o orgulho.
E, sobretudo, não se exige maturidade quando se oferece o comportamento de uma criança contrariada.
Eu não precisava de um imperador. Precisava de um companheiro.
Não precisava de alguém que me governasse. Precisava de alguém capaz de caminhar ao meu lado.
Mas ele parecia interessado demais em ocupar o trono para perceber que relacionamentos não são monarquias.
E, para chegar à altura da relação que eu desejava, teria de crescer muito.
Não porque eu fosse perfeita. Nunca fui. Mas porque existe uma distância imensa entre cometer erros e fazer da própria imaturidade uma identidade.
Ele não precisava chegar aos meus pés. Precisava, antes, aprender a ficar de pé diante das próprias responsabilidades.
E isso, aparentemente, já lhe parecia uma exigência excessiva.
Às vezes me pergunto se realmente acreditava na própria encenação. Se, ao desaparecer, imaginava que seu silêncio seria confundido com grandeza. Se, ao mentir, acreditava que a verdade deixaria de existir. Se, ao tentar assumir a autoria do término, pensava que conseguiria apagar o momento em que eu decidi partir.
Talvez jamais tenha compreendido a diferença entre conquistar respeito e exigir submissão.
Talvez sua maior habilidade tenha sido justamente esta: fazer barulho suficiente para que ninguém percebesse o vazio por trás da pose.
Mas eu percebi.
E não havia nada de extraordinário ali.
Apenas um homem comum, com inseguranças comuns, que escolheu lidar com elas de maneiras extraordinariamente cruéis.
E há uma última ironia, talvez a mais deliciosa de todas.
Eu vou esquecê-lo.
Não porque o que vivi tenha sido insignificante, mas porque minha vida é grande demais para permanecer organizada ao redor de uma decepção. Tenho tanto para construir, tantas pessoas para conhecer, tantas versões de mim mesma para descobrir, que sua lembrança acabará reduzida a uma nota de rodapé.
Talvez eu leve menos tempo para esquecê-lo do que levei para amá-lo.
E isso não será uma vingança. Será apenas a consequência natural de continuar vivendo.
Um dia, seu nome deixará de provocar raiva. Depois, deixará de provocar tristeza. Até que, finalmente, não provocará absolutamente nada.
Não haverá saudade, curiosidade ou vontade de compreender.
Apenas indiferença.
Quanto a ele, não sei se algum dia dormirá em paz com a história que escolheu contar. Talvez consiga acreditar nas próprias versões. Talvez descubra, numa madrugada qualquer, que vencer uma discussão imaginária não significa ter sido justo com alguém.
Talvez perceba que a mulher que tentou diminuir não permaneceu pequena, esperando sua aprovação.
Ela cresceu.
E continuou crescendo.
Eu não preciso desejar-lhe noites insones. A consciência dele, se algum dia resolver conversar com a verdade, saberá fazer as perguntas que eu já não tenho interesse em repetir.
Porque haverá um dia em que ele não ocupará sequer um pensamento meu.
E, nesse mesmo dia, continuará sendo responsável por tudo aquilo que fez.
Essa é a diferença entre nós.
Eu posso deixar essa história para trás.
Ele não pode voltar no tempo e escolher ter sido melhor.
Hoje compreendo que a maior tragédia daquele pequeno imperador não foi perder uma mulher. Foi acreditar que poderia compensar a ausência de grandeza com uma postura grandiosa.
Mas arrogância não é inteligência.
Frieza não é maturidade.
Ciúme não é amor.
Silêncio não é poder.
E idade, definitivamente, não é sinônimo de crescimento.
Se algum dia alguém me perguntar quem foi o menor homem que já existiu, não direi seu nome. Seria conceder-lhe uma importância que nunca mereceu.
Direi apenas que conheci um homem quatro anos mais velho que eu, aproximando-se dos trinta, que desejava ser reconhecido como um imperador, mas ainda precisava aprender as regras mais elementares da convivência humana.
Um sujeito que não suportava ser contrariado, não sabia conversar, não conseguia assumir responsabilidades e, diante da própria rejeição, preferiu inventar uma vitória.
Um homem tão empenhado em parecer superior que nunca encontrou tempo para se tornar melhor.
E eu?
Eu continuarei.
Com meus livros, minhas palavras, meus projetos, minha carreira e a consciência de que não preciso reduzir meu tamanho para preservar o ego de ninguém.
Não sou maior porque ele é pequeno.
Sou maior do que a vida que ele queria me impor.
E essa é uma diferença que nenhuma mentira poderá apagar.
Ele queria ser o imperador da minha história.
Mas era apenas um personagem secundário, fazendo barulho demais para esconder a própria irrelevância.
Talvez um dia ele compreenda que não perdeu uma mulher por causa de um colega de faculdade, de um jogador de futebol ou de qualquer uma das desculpas que inventou para justificar o fim.
Perdeu a possibilidade de continuar ao lado dela porque não soube respeitá-la.
E, quando essa compreensão chegar, se chegar, talvez já não exista ninguém interessado em ouvi-la.
Porque eu estarei longe.
Não necessariamente em quilômetros, mas naquela distância definitiva que separa uma mulher que seguiu em frente de um homem que já não tem importância alguma em sua vida.
Ele precisaria crescer uma vida inteira para alcançar a mulher que eu já era quando o conheci.
E, enquanto ele continuar tentando provar que foi o responsável pelo fim, eu estarei ocupada demais vivendo tudo aquilo que começou depois dele.
No fim, não perdi um grande homem.
Perdi a ilusão de que um dia ele se tornaria um.
E talvez seja essa a última humilhação de seu pequeno império:
Ele precisou me perder para continuar fingindo que era grande. Eu só precisei deixá-lo para me lembrar de que sempre fui.

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