TheGioBlog

it´s just me

A insuportável pequenez dos homens medíocres

Há uma espécie muito particular de homem que confunde a paciência feminina com submissão. São criaturas de uma arrogância quase comovente, convencidas de que o próprio silêncio constitui uma demonstração de poder. Acreditam que desaparecer é castigar, que ignorar é vencer e que uma mulher apaixonada estará, inevitavelmente, à disposição de seus caprichos. Pobres homens. Há algo de profundamente ridículo na confiança com que exercem uma autoridade que ninguém lhes concedeu.

Certa vez, um desses pequenos homens conheceu uma mulher que, desde o princípio, lhe pareceu grande demais para compreender.

Ela era bonita, inteligente, ambiciosa e dona de uma personalidade que jamais aprendera a pedir desculpas por ocupar espaço. Sabia do magnetismo que exercia, das possibilidades que possuía e, sobretudo, do próprio valor. Não precisava de uma desilusão amorosa para descobrir qualquer uma dessas coisas. Sempre soube exatamente quem era.

E o pequeno homem também sabia.

Fora avisado desde o primeiro instante de que nada ficaria em seu caminho. Sabia que aquela mulher não tinha vocação para esperar, que sua presença era uma escolha e jamais uma necessidade. Entre tantas possibilidades, ela havia decidido dedicar-lhe afeto. Um privilégio que ele, em sua extraordinária pequenez, confundiu com dependência.

Talvez esse seja o maior defeito dos homens medíocres: acreditam que podem domesticar aquilo que jamais tiveram grandeza para acompanhar.

Foi então que começou seu pequeno espetáculo de autoridade. Desaparecia por horas, às vezes dias, e reaparecia com a solenidade de quem regressava de uma guerra. Acreditava que cada silêncio produzia uma ferida, que sua ausência era um castigo e que, do outro lado, havia uma mulher imóvel, aguardando o retorno de sua majestade.

Que presunção deliciosa.

Enquanto ele ensaiava suas demonstrações infantis de poder, a vida daquela mulher continuava acontecendo. Havia conversas, encontros, convites e homens que demonstravam, com uma disposição quase desconcertante, o quanto estavam interessados em conhecê-la. Alguns reorganizavam compromissos, outros atravessavam distâncias, e havia aqueles que simplesmente não economizavam esforços para desfrutar algumas horas de sua companhia.

Ela nunca esteve sozinha. Nem mesmo quando ainda gostava dele.

E não havia novidade alguma nisso. Sempre foi desejada, admirada e perfeitamente consciente do interesse que despertava. Não precisava colecionar homens para confirmar o próprio valor, mas tampouco fingiria que suas possibilidades deixavam de existir porque havia escolhido gostar de alguém.

O pequeno homem sabia de tudo isso. O que jamais compreendeu foi que sentimentos sinceros não significavam exclusividade, muito menos uma condenação à espera.

A ironia mais deliciosa daquela história, entretanto, ainda estava por acontecer.

Havia outro homem que, até então, sequer ocupava seus pensamentos. Uma presença discreta, alguém a quem nunca dedicou particular atenção. Mas bastou que o fim do primeiro com sua obsessão possessiva pelo que nada havia, para que o segundo começasse a lhe parecer interessante.

E tudo aconteceu com uma naturalidade quase desconcertante.

As conversas fluíam, o interesse crescia e a companhia era leve. Não havia silêncios calculados, disputas de ego ou a necessidade exaustiva de interpretar intenções. Era curioso descobrir que certas relações podiam florescer sem que ninguém precisasse implorar por água.

E pensar que, se não fosse pela mediocridade do primeiro, talvez ela jamais tivesse reparado no segundo.

Havia certa justiça poética nisso.

Mas seria um equívoco imaginar que a mulher simplesmente substituíra um homem por outro. A nova companhia era particularmente interessante, é verdade, mas não havia exclusividade, promessas ou qualquer necessidade de transformar uma descoberta em compromisso.

Ela era livre. Completamente livre.

Havia outros homens, outras possibilidades e uma quantidade considerável de pessoas dispostas a oferecer aquilo que o pequeno homem tratava como um favor. Alguns eram encantadores, outros surpreendentemente interessantes, e todos lhe recordavam uma verdade que ela jamais havia esquecido: sua vida nunca dependeu da presença de um único homem.

A mulher possuía um magnetismo quase inconveniente. Não era apenas sua beleza, embora fosse perfeitamente consciente dela. Havia algo em sua inteligência, em sua intensidade e naquela maneira particular de existir que despertava curiosidade. Não precisava disputar atenção. A atenção vinha. Não precisava convencer ninguém de que merecia ser escolhida. Estava ocupada demais exercendo o direito de escolher.

Ainda assim, possuía um defeito que às vezes lhe custava caro: acreditava que as pessoas fossem capazes de conversar.

Por consideração àquilo que um dia sentira, chegou a cogitar uma última conversa com o pequeno homem. Não porque estivesse abandonada ou desejasse desesperadamente uma reconciliação, mas porque considerava que duas pessoas adultas deveriam ser capazes de sustentar um diálogo sem transformá-lo numa competição de vaidades.

Ele, naturalmente, confundiu generosidade com desespero.

E, como acontece com aqueles que não conseguem sustentar a realidade, resolveu fabricar uma versão mais conveniente dos acontecimentos. Nela, era o grande protagonista, o homem que havia terminado, que decidira partir e que conservara o controle.

Uma narrativa particularmente engraçada, considerando que jamais existira um relacionamento propriamente dito. A mulher mesmo jamais acreditou nisso.

Houvera envolvimento, sentimentos e expectativas, até amor, mas nunca um compromisso que lhe concedesse tamanha autoridade. Era quase como assistir a alguém anunciar, com extraordinária solenidade, sua demissão de um cargo para o qual jamais havia sido contratado.

Não satisfeito, ainda transformou uma cordialidade familiar em suposta perseguição. A gentileza espontânea de terceiros, educadamente correspondida pela mulher, tornou-se, em sua imaginação, uma tentativa desesperada de aproximação.

Uma criatividade admirável, embora bastante constrangedora.

Ela nunca precisaria procurar a família de homem nenhum, tampouco recorrer a intermediários para conquistar atenção. Limitara-se a ser educada, uma qualidade aparentemente exótica para quem tinha tão pouca familiaridade com a civilidade.

Mas compreendeu que certas pessoas precisam transformar a educação alheia em humilhação para não reconhecer a própria falta dela.

E não se deu ao trabalho de corrigir todas as versões.

Tinha coisas infinitamente mais interessantes a fazer.

O pequeno homem, por sua vez, podia conservar sua vitória imaginária. Talvez encontrasse algum conforto na ideia de que ele quem determinou o desfecho. Talvez precisasse acreditar que seus silêncios haviam sido eficientes e que a mulher permaneceu à sua espera, todas as vezes.

Pouco importava.

Ela continuava bonita, inteligente, desejada e cercada de possibilidades. Havia uma companhia que lhe despertava particular interesse, outras tantas que demonstravam disposição em conquistá-la e, sobretudo, a liberdade deliciosa de não dever explicações amorosas a ninguém.

Nunca esteve em posição de desvantagem. Nunca precisou implorar por presença. E jamais permitira que o afeto que sentiu por alguém fosse confundido com incapacidade de seguir a própria vida. Que o pequeno homem em seu grande ego, mal sabia que nunca havia parado esperando por ele.

O pequeno homem acreditou estar conduzindo uma partida de xadrez, antecipando movimentos e determinando quando deveria conceder ou retirar atenção. Não percebeu que aquela mulher jamais lhe entregou o tabuleiro.

O controle que tanto imaginava possuir era apenas mais uma fantasia de sua vaidade. Jamais entenderia que pessoas tão ricas de estabilidade emocional tentam quando sentem que existe potencial.

No fim, havia algo de quase cruel naquela ironia: enquanto ele se esforçava para parecer indispensável, tantos outros demonstravam, espontaneamente, o quanto estavam dispostos a ocupar um espaço que ele tratava com tamanho descaso. A mulher sabia, mas sempre que o descaso aparecia, ela também seguia.

E a mulher, que sempre conheceu o próprio valor, não precisou se transformar depois daquela experiência. Continuou exatamente quem era, apenas com menos paciência e expectativa de cura para a mediocridade.

O pequeno homem não a perdeu por desconhecer sua grandeza. Perdeu-a porque, mesmo tendo sido avisado desde o princípio, cometeu a estupidez de acreditar que seria capaz de diminuí-la.

Ela sempre soube quem era. Sempre soube se manter em silêncio.

Ele também.

Mas eram diferentes.

A diferença é que apenas um dos dois levou o aviso a sério.

Leave a Reply