como menina, passei grande parte da minha vida aprendendo a silenciar as pequenas violências que fui enfrentando ao longo do tempo.
aprendi a me silenciar quando ouvi o grito de um homem pela primeira vez, aos 15 anos.
algo que o meu próprio pai jamais fez comigo.
como já descrevi neste blog, daquele grito vieram outros silêncios.
muitas vezes, o simples fato de eu ter respondido ou levado a situação até aquele ponto passou a soar como culpa.
aprendi a me silenciar quando entendi que meninos têm a liberdade e a voz para falar, agir e fazer o que quiserem conosco, e ainda assim encontrarão apoio, até mesmo em outras mulheres.
aprendi como somos deslegitimadas ao ver casos claros de violência sexual, de namorados e maridos que insistem mesmo depois do não.
traumas sendo criados, e mesmo assim nós mesmas somos ensinadas que esse comportamento é esperado, quase inevitável.
muitas vezes, somos apontadas como o problema, mesmo quando não somos.
quando somos enganadas, manipuladas, desde cedo aprendemos a procurar a nossa própria culpa.
o que levou essa pessoa a agir assim comigo?
onde eu errei?
somos ensinadas a competir e a brigar com outras meninas, em uma rivalidade inventada pelo próprio patriarcado, onde mulheres, sendo colocadas como inimigas, permanecem exatamente como se espera, caladas.
e, enquanto aprendemos a nos calar, os números seguem falando por nós.
segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registra mais de 1.400 casos de feminicídio por ano, o que significa, na prática, que ao menos uma mulher é morta a cada poucas horas simplesmente por ser mulher.
até onde esse silêncio vai nos levar? quando vamos aprender a falar e a agir por nós mesmas. a parar de carregar esse fardo tão pesado. mães, terapeutas, empregadas, cuidadoras, serventes. um pedaço feito de uma costela, para servir alguém.
todos os dias esse silêncio nos mata mais.

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