tem gente que nasce com raiz.
eu nasci com vontade de ir.
não é ingratidão com o lugar onde eu cresci. não é desprezo. mas tem algo em mim que nunca encaixou completamente aqui. como se eu estivesse sempre um pouco fora de ritmo, um pouco deslocada, como se o mundo que eu imagino fosse maior do que o que me cabe.
desde pequena, eu olho mapas como quem olha possibilidades.
não como quem quer escolher um destino de férias, mas como quem tenta entender onde, afinal, se sente em casa.
e a resposta nunca foi um só lugar.
eu quero a Inglaterra. não só como ideia bonita, mas como cenário de vida. ruas cinzas, céu fechado, rotina que parece mais silenciosa, mais minha. quero construir alguma coisa lá, estudar, trabalhar, existir de um jeito que aqui eu ainda não consegui.
mas não é só isso.
eu não quero trocar um lugar por outro e chamar isso de sonho realizado. eu quero movimento.
quero pisar no Japão e sentir o choque de tudo que é diferente, a estética, o silêncio, a organização, o detalhe. quero andar na China e me perder no tamanho das coisas, na história que parece infinita, na sensação de que o mundo é muito maior do que qualquer plano que eu faça.
quero estar em lugares onde ninguém me conhece.
onde eu não sou a versão que criaram de mim. onde eu não preciso sustentar nenhuma expectativa antiga.
só eu, sendo.
tem uma liberdade muito específica em ser desconhecida.
em poder começar de novo quantas vezes quiser.
e talvez seja isso que eu busco no fundo.
não só viajar, mas me reinventar.
porque ficar, pra mim, sempre teve um peso.
ficar significa repetir.
significa cair nos mesmos padrões.
significa, às vezes, voltar pra versões minhas que eu já ultrapassei.
e eu não quero isso.
eu quero o contrário.
quero estranhar, aprender, errar em outra língua, me perder em metrôs que eu não entendo, pedir informação com sotaque, construir uma vida aos poucos em lugares que antes só existiam na minha cabeça.
quero histórias que não cabem numa rotina previsível.
e eu sei que não é fácil.
não romantizo o medo, a solidão, o começo do zero. sei que tem dias em que a saudade aperta, em que tudo parece mais difícil do que deveria.
mas, mesmo assim, ficar me assusta mais do que ir.
porque ficar, pra mim, sempre teve gosto de estagnação.
e eu não fui feita pra isso.
eu fui feita pra atravessar.
pra mudar de cenário, de idioma, de versão.
pra colecionar lugares até entender, talvez, que casa nunca foi um ponto fixo.
foi sempre o caminho.

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