a psicóloga me perguntou por que eu parecia tão cansada.
e eu quase ri, porque como se explica um cansaço que já saiu do emocional e começou a morar no corpo?
eu passei a semana inteira doente.
enjoo.
dor.
queimação no estômago.
idas ao hospital.
remédio atrás de remédio.
médicos tentando aliviar sintomas que, no fundo, eu sabia que não eram só físicos.
meu corpo começou a reagir ao que meu coração tentava suportar calado.
e o pior é que, mesmo deitada numa maca de hospital, mesmo sentindo dor física real, uma parte de mim ainda esperava uma atitude dele. qualquer uma. uma mensagem. uma demonstração mínima de coragem. porque eu sabia que ele estava vendo tudo. os tweets. os sumiços. as indiretas cada vez menos indiretas. eu sabia que ele estava assistindo a situação inteira acontecer em silêncio.
e talvez seja isso que tenha me destruído mais do que a dor.
o silêncio.
“ele sente”, eu disse pra ela quase imediatamente, como quem precisava defender alguém antes mesmo de terminar a história. “eu sei que sente.”
e ela ficou quieta por alguns segundos.
eu contei sobre o jeito dele. sobre como ele parecia exatamente o eremita das cartas: alguém preso dentro da própria caverna emocional, observando o mundo pela entrada, segurando uma lanterna pequena nas mãos enquanto tudo do lado de fora queimava.
um homem que pensa demais.
sente demais.
mas age de menos.
“e o pior”, eu falei olhando pro chão, “é que eu já vi ele fazer questão antes.”
acho que essa foi a primeira vez que minha voz realmente falhou. e que vontade absurda de vomitar.
porque era isso que me assombrava.
eu já tinha visto insistência.
já tinha visto demonstração.
já tinha visto ele transformar sentimento em algo impossível de esconder.
então por que comigo o amor virou silêncio?
a pergunta ficou parada entre nós por alguns segundos, pesada demais para desaparecer rápido.
e então minha psicóloga falou uma frase tão simples que quase me irritou:
“o corpo sempre encontra uma maneira de gritar aquilo que a mente tenta suportar sozinha por tempo demais.”
acho que foi aí que eu comecei a entender por que meu corpo tinha começado a falhar junto comigo.
porque eu não estava só triste.
eu estava exausta.
exausta de esperar movimento de alguém que parecia paralisado dentro do próprio orgulho.
exausta de tentar traduzir silêncio em amor.
exausta de sentir meu corpo adoecer enquanto alguém que dizia me amar observava tudo de longe, incapaz de atravessar alguns metros de vulnerabilidade para dizer:
“eu errei.”
“eu sinto sua falta.”
“fica.”
“quem realmente quer permanecer na vida de alguém encontra uma forma de fazer isso”, ela continuou depois.
sem romantizar ausência.
sem transformar orgulho em profundidade emocional.
sem chamar incapacidade afetiva de amor complicado.
porque existe uma diferença enorme entre alguém que sofre em silêncio e alguém que escolhe permanecer ausente enquanto vê a pessoa que ama desmoronar.
“mas ele sente”, eu repeti outra vez, mais baixo agora.
e ela concordou.
“eu não duvido disso. mas amor não pode existir só dentro da cabeça de alguém. porque se ele nunca vira atitude, cuidado, presença ou coragem, a outra pessoa acaba vivendo esse amor completamente sozinha.”
e talvez essa tenha sido a parte mais dolorosa de aceitar.
eu ainda acredito que existe amor ali dentro.
mas também aprendi, da forma mais cruel possível, que o corpo adoece quando o coração passa tempo demais tentando sobreviver dentro de uma ausência.

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