Quando a Morte se apaixonou pelo Diabo, o mundo inteiro apostou que aquilo acabaria em tragédia.
Não porque não havia amor.
Mas porque havia amor demais.
A Morte sempre foi conhecida por sua coragem.
Ela atravessava incêndios sem hesitar.
Fechava portas.
Mudava de pele.
Enterrava versões antigas de si mesma como quem entende que crescer exige despedidas.
Ela nunca teve medo de ir embora.
Na verdade, ir embora era quase um talento.
Ao longo da vida, a Morte aprendeu a sobreviver passando por cima dos próprios escombros. Aprendeu a deixar pessoas para trás. Aprendeu a seguir caminhando mesmo quando o coração implorava para ficar.
E o Diabo sabia disso.
Sabia que antes dele existiram outros caminhos.
Outras histórias.
Outras pessoas que um dia também acharam que seriam insubstituíveis.
E que, no final, acabaram ficando para trás enquanto a Morte continuava caminhando.
Era um dos seus maiores medos.
Não perdê-la para outro homem.
Não perdê-la para a distância.
Não perdê-la para o tempo.
Mas vê-la olhar para ele com aqueles olhos decididos que sempre anunciavam um fim.
E perceber que, finalmente, tinha chegado a vez dele.
A vez de ser alguém sobre quem a Morte pisaria para continuar vivendo.
Porque o Diabo conhecia uma verdade que ela própria esquecia às vezes:
a Morte sempre sobrevivia.
Mesmo quando tudo acabava.
Mesmo quando sangrava.
Mesmo quando jurava que não conseguiria.
Ela sobrevivia.
E isso o aterrorizava.
Porque significava que ela sobreviveria sem ele também.
O Diabo, por outro lado, passou a vida inteira tentando sobreviver.
As pessoas o chamavam de frio, distante, difícil.
Mas ninguém percebia que por trás das correntes havia apenas alguém apavorado.
Apavorado de falhar.
De não ser suficiente.
De prometer algo que não conseguiria cumprir.
De machucar quem amava.
De ser amado e, ainda assim, não conseguir acreditar que merecia.
A Morte viu isso.
Foi por isso que ficou.
Porque enxergou o homem escondido atrás do monstro.
E o Diabo ficou fascinado por ela.
Pela coragem.
Pela intensidade.
Pela forma como ela dizia as coisas que ninguém tinha coragem de dizer.
Pela maneira como ela olhava para as feridas e dizia:
— Vamos cuidar disso.
Enquanto ele só queria fingir que elas não existiam.
Eles se apaixonaram como todas as pessoas que não deveriam se apaixonar.
Profundamente.
Perigosamente.
Irremediavelmente.
E então veio a parte difícil.
Porque amar alguém nunca é difícil quando tudo está bem.
Difícil é quando o amor encontra os medos.
A Morte queria construir.
Queria conversar.
Queria enfrentar.
Queria colocar nome nas coisas.
Queria pegar na mão dele e atravessar a tempestade juntos.
O Diabo queria também.
Mas toda vez que a tempestade chegava, alguma coisa dentro dele dizia para correr.
Para se esconder.
Para desaparecer.
Para resolver sozinho.
Porque foi assim que ele aprendeu a sobreviver.
E a Morte não entendia.
Como alguém podia sentir tanto amor e tanto medo ao mesmo tempo?
Como alguém podia querer ficar e fugir na mesma medida?
Mas o que ela não sabia era que o Diabo passava os dias travando batalhas invisíveis.
Ele olhava para ela e via tudo o que sempre quis.
E justamente por isso sentia pavor.
Porque perder uma coisa comum dói.
Mas perder aquilo que parece único destrói.
Então ele hesitava.
Recuava.
Silenciava.
E a Morte, que nunca teve medo dos monstros dos outros, começou a sentir uma coisa estranha.
Começou a sentir a si mesma morrer.
De novo.
Não a morte dos livros.
Nem a das lendas.
A outra.
Aquela que acontece quando alguém começa a desistir silenciosamente.
Quando uma esperança vai embora.
Quando uma promessa deixa de parecer possível.
Quando o amor continua existindo, mas já não sabe onde morar.
A cada silêncio, alguma coisa dentro dela desaparecia.
A cada medo dele, alguma coisa dentro dela enfraquecia.
E pela primeira vez em muito tempo, a Morte sentiu que estava se tornando aquilo que sempre enterrou nos outros.
Um fantasma.
Talvez fosse isso que tornava tudo tão cruel.
O Diabo tinha medo de que ela fosse embora.
E a Morte tinha medo de morrer antes disso.
Os dois se amavam.
Os dois estavam assustados.
Os dois estavam perdendo a guerra para os próprios fantasmas.
E talvez esse tenha sido sempre o verdadeiro romance entre eles.
Não um romance sobre encontrar a pessoa certa.
Mas sobre descobrir se o amor consegue sobreviver quando duas pessoas estão lutando contra si mesmas.
Porque, no fim, o Diabo não temia a Morte.
Temia ser abandonado por ela.
E a Morte não temia o Diabo.
Temia que, esperando por ele, acabasse desaparecendo primeiro.

Leave a comment