e as pessoas costumam entender isso errado.
acham que ela é amarga.
acham que ela é fria.
acham que ela é cruel.
mas a rainha de espadas não é nenhuma dessas coisas.
na verdade, a rainha de espadas costuma nascer justamente depois que alguém amou demais.
ela não nasce da falta de amor.
ela nasce do excesso dele.
ela é a mulher que tentou explicar.
tentou compreender.
tentou justificar.
tentou esperar mais um pouco.
tentou dar mais uma chance.
tentou acreditar numa versão melhor das pessoas.
até perceber que algumas pessoas usam a bondade dos outros como esconderijo.
e então ela aparece.
não com uma espada para ferir.
mas com um espelho.
e talvez seja por isso que tanta gente tenha medo dela.
porque a rainha de espadas não inventa monstros.
ela não acusa ninguém de coisas que não existem.
ela apenas coloca um espelho na frente de alguém e diz:
“olha.”
olha para o que você fez.
olha para o que você disse.
olha para quem você se tornou.
olha para as consequências das suas escolhas.
e, de repente, o problema deixa de ser a rainha.
o problema passa a ser o reflexo.
porque quase ninguém gosta de encarar a própria covardia.
quase ninguém gosta de admitir que machucou alguém.
quase ninguém gosta de perceber que poderia ter agido melhor.
e então culpam o espelho.
chamam a rainha de dura.
de exagerada.
de agressiva.
quando, na verdade, ela apenas se recusou a continuar fingindo que não estava vendo.
a rainha de espadas não grita porque odeia.
ela fala porque já ficou calada tempo demais.
e quando ela aparece, geralmente é porque todas as outras versões dela tentaram primeiro.
a menina apaixonada.
a mulher paciente.
a pessoa compreensiva.
a que dava o benefício da dúvida.
todas elas tentaram.
a rainha de espadas é apenas quem sobra quando a verdade finalmente decide entrar na sala.
e ela entra sem pedir licença.
não para destruir ninguém.
mas para lembrar que amor sem verdade não salva relação nenhuma.
e que, às vezes, o ato mais justo que alguém pode fazer é entregar um espelho a quem passou a vida inteira correndo dele.
e se necessário, cortar o mal pela raiz de vez.

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