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Unethical: o amor não deveria custar tanto

Existe algo profundamente injusto em precisar se despedaçar para continuar amando alguém. Como se o amor fosse uma espécie de sacrifício inevitável, no qual uma pessoa oferece tudo o que tem enquanto a outra decide, silenciosamente, o quanto está disposta a receber.

Em Unethical, Faouzia descreve a experiência de tentar manter alguém por perto mesmo quando isso significa destruir partes de si. A imagem é quase grotesca: ossos quebrados na tentativa de abraçar, um coração arrancado do próprio corpo, a pele retirada para permitir que o outro entre. É uma maneira brutal de representar algo que, infelizmente, costuma ser romantizado: a ideia de que amar muito significa suportar qualquer coisa.

Mas desde quando o amor deveria exigir tanto sofrimento?

Talvez a parte mais revoltante não seja sequer a dor, mas a indiferença diante dela. A capacidade de assistir ao sofrimento de alguém que um dia foi tão importante e continuar evitando até mesmo uma conversa. Como se reconhecer a própria responsabilidade fosse um esforço maior do que aquele exigido de quem continua esperando.

Faouzia canta sobre aguardar um pedido de desculpas que nunca chega. E existe algo especialmente amargo nessa espera, porque ela não diz respeito apenas ao arrependimento. É sobre desejar que o outro reconheça que aquilo que aconteceu não foi justo.

Não quero acreditar que precise explicar a alguém por que determinadas atitudes machucam. Não quero transformar consideração em uma exigência extraordinária, nem continuar procurando humanidade em respostas que nunca chegam.

Às vezes, me pergunto se não coloquei certas pessoas em lugares altos demais. Se não confundi a capacidade de amar alguém com a obrigação de compreender tudo o que essa pessoa faz. Porque existe uma diferença entre reconhecer as dificuldades do outro e permitir que elas justifiquem indefinidamente a própria dor.

E, mesmo assim, o amor continua ali.

Essa talvez seja a contradição mais cruel de todas. Sentir uma raiva quase insuportável e ainda guardar esperança. Querer partir, mas desejar que exista alguma razão para ficar. Sentir saudade de uma pessoa que, no presente, já não se parece tanto com aquela que vive nas lembranças.

Em determinado momento, a música traz uma pergunta: “Me diz, eu não te dei o bastante?”

E eu acho que essa é uma das perguntas mais tristes que alguém pode fazer dentro de uma relação. Porque ela nasce quando o amor deixa de ser uma troca e começa a parecer uma tentativa interminável de provar que se merece alguma coisa.

Quanto mais seria necessário oferecer? Quantas conversas, quantas concessões, quantas oportunidades? Em que momento aquilo que já foi dado passa a ser suficiente?

Não acredito que o amor precise ser perfeito. Sei que pessoas erram, que sentimentos são confusos e que nem sempre temos maturidade para lidar com tudo aquilo que sentimos. Mas também acredito que amar alguém exige alguma responsabilidade sobre a maneira como escolhemos tratá-lo.

E não deveria ser necessário implorar por isso.

Talvez eu esteja cansada de tentar encontrar justificativas para atitudes que, se fossem minhas, eu mesma teria dificuldade de defender. Cansada de compreender tanto e ser compreendida tão pouco. De procurar delicadeza onde encontro evasivas. De perceber que, enquanto tento preservar uma história, também estou permitindo que ela me machuque.

Há uma espécie de luto em descobrir que o amor continua existindo, mas a admiração começa a dar nó no estômago. Porque eu ainda consigo lembrar de tudo com carinho. Ainda consigo reconhecer a beleza daquilo que foi vivido. Só não consigo ignorar o ressentimento que cresceu ao lado dessas lembranças.

E talvez seja por isso que Unethical me provoque tanta identificação. A canção não parece pedir que alguém seja obrigado a amar. Ela exige que o outro tenha alguma misericórdia, alguma consciência do sofrimento que está provocando.

Não quero precisar odiar alguém para conseguir seguir em frente. Muito menos quero continuar amando à custa de mim mesma.

Se ainda existe amor, que ele seja demonstrado de uma maneira que não machuque tanto. Se já não existe, que haja honestidade suficiente para permitir uma despedida.

Porque eu não quero continuar me desfazendo para caber na vida de alguém.

Ame-me direito ou me deixe ir.

Mas não me peça para continuar sangrando enquanto você decide se vale a pena estender a mão.

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