Sempre admirei pessoas que têm coragem de existir sem pedir licença.
Talvez porque eu mesma tenha passado tempo demais calculando os riscos, medindo as palavras e imaginando todas as maneiras possíveis de fracassar. Há qualquer coisa de fascinante em quem, apesar das incertezas do mundo, decide apostar tudo em um sonho.
E um dia eu vi um garoto assim.
Tinha a rebeldia dos meninos das antigas canções de rock, os cabelos desalinhados, camisas de banda, e uma confiança quase insolente no próprio destino. Era desses que pareciam ter nascido com uma guitarra e uma afinação impecável nas mãos e uma inquietação permanente no peito. Não porque desconhecesse as dificuldades, mas porque jamais permitiu que elas fossem maiores do que sua vontade.
Lembro-me de pensar que havia algo de extraordinário naquela coragem.
Ele não parecia interessado em descobrir se o mundo lhe daria uma oportunidade. Queria conquistá-la. Tinha sonhos grandes demais para caber em conversas pequenas e uma fé quase absurda na própria capacidade de realizá-los.
E eu, que sempre tive o péssimo hábito de duvidar antes mesmo de tentar, achava aquilo fascinante. Sempre foi meu sonho ser como aquele garoto era.
Perguntava-me de onde vinha tamanha certeza. Como alguém podia acreditar tanto em alguma coisa a ponto de persegui-la mesmo quando não havia qualquer garantia de que daria certo?
Talvez fosse isso que mais me encantasse: ele não precisava saber como a história terminaria para decidir vivê-la.
E viveu.
Houve palcos, luzes, aplausos e noites em que o mundo pareceu pequeno diante de tudo aquilo que carregava dentro de si. Houve músicas que deixaram de pertencer apenas a quem as escreveu e passaram a existir na memória de desconhecidos. O garoto que um dia imaginou a própria voz atravessando uma multidão descobriu que os sonhos, por mais improváveis que pareçam, também podem ganhar corpo.
Ele conseguiu.
E, por alguma razão, eu sentia orgulho de uma conquista que sequer era minha.
Mas a vida tem o péssimo hábito de desafinar justamente quando começamos a reconhecer a melodia.
Algumas pessoas partiram. Certos sonhos, antes compartilhados, tornaram-se motivos de desencontro. E aquilo que havia sido construído entre acordes, risadas e promessas começou a ruir sob o peso de coisas que talvez ninguém soubesse explicar.
Descobri, observando aquele garoto, que até os mais corajosos podem se perder nos próprios caminhos.
E confesso que havia algo de doloroso nisso.
Não porque eu esperasse que fosse invencível, mas porque sempre achei injusto que o mundo exigisse tanto daqueles que já entregaram tudo o que tinham.
Talvez seja essa a parte mais cruel de crescer: compreender que nem toda história construída com amor está destinada a permanecer intacta.
Ainda assim, nunca consegui enxergar nele alguém derrotado.
Via um garoto atravessando uma tempestade com os bolsos cheios de sonhos e a teimosia de quem ainda não havia terminado de contar sua história.
Penso muito no menino daquela velha canção de Avril Lavigne. O garoto do skate, das guitarras e dos sonhos que pareciam grandes demais para os olhos alheios. Aquele que, contra as expectativas, acabou encontrando seu lugar sob as luzes de um palco.
Mas penso, sobretudo, naquilo que a canção não conta.
O que acontece depois dos aplausos? Quando as luzes se apagam, os amigos seguem caminhos diferentes e o artista precisa voltar a ser apenas humano?
Quem cuida do menino quando o mundo deixa de cantar com ele?
Não sei.
Sei apenas que há pessoas cuja coragem nos ensina alguma coisa, mesmo quando elas próprias não percebem.
Aquele garoto me ensinou que acreditar em si mesmo também é uma forma de resistência. Que sonhos não precisam ser modestos para serem legítimos. E que existe uma beleza imensa em quem se recusa a abandonar aquilo que ama, mesmo depois de descobrir o quanto amar pode custar.
Talvez eu nunca tenha coragem de viver com tamanha intensidade. Talvez continue sendo alguém que observa as estrelas enquanto outros encontram maneiras de alcançá-las.
Mas não existe inveja alguma na minha admiração.
Existe apenas uma ternura imensa por aqueles que ousam.
E, quando penso naquele garoto, não desejo que volte a ser exatamente quem era antes de tudo acontecer. Desejo que descubra quantas outras versões de si ainda poderá conhecer. Que encontre novas melodias, outros palcos e pessoas capazes de compreender a grandeza daquilo que carrega.
Porque uma banda pode acabar, uma amizade pode se perder e até os sonhos mais bonitos podem mudar de forma.
Mas o garoto continua ali.
Com sua coragem, suas cicatrizes e aquela maneira quase absurda de acreditar que ainda existe alguma coisa esperando por ele.
E eu, que sempre tive tanto medo de cair, continuo admirando quem aprendeu a voar sem jamais exigir do céu a promessa de que não haveria tempestades.
Às vezes, ainda penso naquele menino que vi um dia. Na maneira como seus olhos pareciam se acender quando falava daquilo que amava. Na certeza com que descrevia futuros que ainda não existiam, como se pudesse construí-los apenas com a força da própria vontade.
E espero que a vida jamais lhe roube isso.
Porque, se um dia eu vi um garoto que parecia ter nascido para ser uma estrela do rock, hoje compreendo que sua maior grandeza nunca esteve nos palcos que conquistou.
Estava na coragem de continuar sendo aquele garoto, mesmo quando a música parou.

Leave a Reply