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it´s just me

a viagem de chihiro

às vezes eu penso que o verdadeiro significado de A Viagem de Chihiro é entender que existem lugares, pessoas e versões nossas que só existem por um período muito específico da vida.

eu assisti chihiro durante meu intercâmbio, em um quarto cheio de malas abertas, casacos espalhados, cheiro de comida pronta e meninas que poucas semanas antes eram completas desconhecidas. e talvez nenhuma de nós soubesse naquele momento, mas todas já estavam vivendo exatamente o que o filme tentava explicar.

a sensação de atravessar um túnel invisível e nunca mais voltar igual.

porque viajar tão nova mudou alguma coisa irreversível dentro de mim. não era só sobre estar em outro país. era sobre acordar pela primeira vez pra possibilidade de existir uma vida completamente diferente daquela que eu conhecia.

eu lembro da sensação de andar pelas ruas ouvindo música e sentir que finalmente tinha encontrado meu lugar no mundo. como se eu estivesse vivendo dentro da vida que passei anos imaginando na cabeça. tudo parecia mais vivo:
as luzes,
o frio,
as estações,
os sotaques,
as amizades rápidas que pareciam antigas,
as conversas de madrugada,
a sensação constante de descoberta.

e talvez a pior parte do intercâmbio seja que em algum momento você esquece que ele acaba.

você começa a acreditar que aquela pode ser sua vida definitiva. que aquelas pessoas vão continuar ali. que o grupo vai continuar junto. que os dias vão continuar acontecendo daquele jeito.

mas não continuam.

e ninguém prepara você pra saudade absurda de uma vida que tecnicamente nunca foi sua por completo.

porque depois que voltei, tudo virou memória rápido demais.

alguns dos que fizeram meus dias lá mais felizes já nem fazem mais parte da minha rotina. pessoas que um dia pareciam essenciais foram desaparecendo naturalmente, como se aquele mundo só existisse dentro daquele espaço de tempo específico.

igual chihiro.

porque no final do filme, chihiro precisa ir embora mesmo sem querer. ela atravessa tudo aquilo, cresce, muda, ama, encontra pessoas que transformam ela profundamente… e ainda assim precisa voltar pro mundo dela.

e talvez tenha sido exatamente essa nova versão minha.

a menina que voltou do intercâmbio carregando saudade demais dentro do peito.

que conheceu ele.

um mês depois.

e desde o começo parecia familiar de um jeito impossível de explicar. como se alguma parte minha reconhecesse ele antes mesmo de entender racionalmente por quê.

como o haku.

porque eu conseguia enxergar ele até nos silêncios.
nas fugas.
na confusão emocional.
na dificuldade absurda que ele tem de permanecer quando sente demais.

e talvez por isso tudo doa tanto agora.

porque depois do intercâmbio eu aprendi que as coisas mais bonitas da vida às vezes também têm prazo de validade.

algumas pessoas aparecem só por uma estação.
alguns lugares só existem por um momento específico.
alguns amores entram na nossa vida pra nos transformar, não necessariamente pra ficar.

mas mesmo assim, existe uma parte minha presa naquela cena final de chihiro.

naquele instante antes da despedida.
naquele momento em que ela olha pra haku sabendo que eles pertencem a mundos diferentes agora, mas ainda assim pede uma promessa.

e acho que, no fundo, é exatamente assim que me sinto sobre ele.

como alguém que apareceu depois da travessia.
depois que eu já tinha mudado.
depois que eu já entendia que o mundo pode arrancar pessoas da nossa vida rápido demais.

mas que ainda assim eu queria pedir:

promete que, mesmo perdido dentro de você mesmo, mesmo fugindo, mesmo se a vida levar a gente pra lados completamente diferentes… você vai me encontrar de novo.

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