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it´s just me

Antes da queda

Há uma versão de mim que está sempre correndo.

Ela corre atrás de prazos da faculdade. Corre atrás de estágios. Corre atrás de sonhos que parecem grandes demais para caberem na própria vida. Corre atrás de um futuro que, na minha cabeça, tem sotaque britânico, uma redação, um microfone, um palco, uma música.

Ela corre porque acredita que, se parar, alguma coisa muito escura vai alcançá-la.

O problema é que às vezes alcança mesmo assim.

Convivo com episódios depressivos desde os treze anos. Tempo suficiente para reconhecer os sinais antes de eles se instalarem. Eles não chegam fazendo barulho. Não derrubam portas. Não anunciam a própria chegada.

Eles apenas começam a levar coisas embora.

Primeiro, a vontade de conversar.

Depois, a vontade de sair.

A vontade de responder mensagens.

A vontade de sonhar.

A vontade de acreditar.

E o pior é que ninguém vê quando isso acontece.

Por fora, continuo sendo a menina que entrega trabalhos, que escreve textos enormes, que fala sobre política, cultura, jornalismo, música e cinema. Continuo sendo a menina que faz planos para a Inglaterra, que imagina o futuro, que tenta construir uma carreira.

Mas por dentro, às vezes parece que estou observando a minha própria vida através de um vidro.

Tudo continua acontecendo.

Eu é que não consigo alcançar.

É estranho porque passei boa parte da vida acreditando que, quando certas coisas acontecessem, eu finalmente seria feliz. Quando entrasse na faculdade. Quando viajasse para a Inglaterra. Quando encontrasse alguém especial. Quando conseguisse determinada oportunidade.

E algumas dessas coisas realmente aconteceram.

Eu caminhei pelas ruas que sonhava conhecer desde criança. Entrei na universidade que queria. Conheci pessoas que marcaram a minha história. Vivi sentimentos que nem sabia que era capaz de sentir.

Mesmo assim, a tristeza encontrou o caminho de volta.

Talvez porque a depressão não respeite lógica.

Ela não se importa com conquistas.

Não se impressiona com currículos.

Não desaparece só porque existem motivos para agradecer.

E isso é uma das partes mais difíceis de explicar.

Porque começo a me sentir culpada.

Penso em tudo o que já conquistei.

Em tudo o que ainda quero conquistar.

E ainda assim acordo alguns dias com a sensação de que estou falhando na própria vida.

Ultimamente tenho sentido isso se espalhar.

Não é só sobre uma decepção.

Não é só sobre um coração partido.

Não é só sobre autoestima.

É tudo junto.

É olhar para o futuro e sentir medo.

É olhar para o presente e sentir frustração.

É olhar para mim mesma e não gostar do que vejo.

É me perguntar por que algumas pessoas conseguem simplesmente existir enquanto eu pareço estar sobrevivendo o tempo todo.

E talvez o mais doloroso seja perceber que estou ficando em silêncio.

Eu, que sempre tive palavras para tudo.

Eu, que transformava qualquer dor em texto.

Eu, que fazia perguntas para o mundo inteiro.

De repente, não tenho vontade de falar.

Só de existir um pouco mais quieta.

Como se estivesse economizando energia para alguma batalha que ainda nem começou.

Mas existe uma coisa que a depressão nunca conseguiu tirar de mim completamente.

A esperança.

Ela fica pequena.

Machucada.

Quase invisível.

Mas continua ali.

Porque se eu sobrevivi aos treze, aos quinze, aos dezoito, aos vinte e um, talvez exista uma parte de mim que ainda acredita que dias melhores continuam possíveis.

Mesmo quando eu não consigo vê-los.

Mesmo quando tudo parece distante.

Mesmo quando estou cansada.

Talvez essa seja a versão mais honesta da coragem.

Não a de quem está feliz.

Mas a de quem continua caminhando mesmo sem saber exatamente para onde.

A de quem perdeu a vontade de falar, mas ainda não perdeu completamente a vontade de ficar.

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