– então me fala logo
isadora falou isso mexendo ansiosamente no anel do dedo enquanto observava as cartas espalhadas na mesa.
o apartamento pequeno da cigana cheirava a cravo, vela queimando e café forte.
a chuva caía devagar na janela enquanto a fumaça do incenso subia lentamente entre as duas.
a cigana levantou os olhos por alguns segundos antes de virar outra carta.
lua.
enamorados.
dez de copas.
ela soltou um suspiro baixo.
— menina… ele sente demais.
isadora desviou o olhar imediatamente.
— então por que ele tá em silêncio?
a mulher apoiou os cotovelos na mesa.
— porque algumas pessoas, quando sentem muito, não correm na direção do amor. elas desaparecem pra dentro da própria cabeça.
isadora ficou quieta.
e talvez a pior parte fosse que aquilo fazia sentido demais.
a cigana passou os dedos pelas cartas espalhadas.
— ele pensa em você o tempo inteiro.
isadora soltou uma risada sem humor.
— você tá falando isso porque eu quero ouvir.
a mulher riu fraco.
— não. tô falando porque tá aqui.
ela virou outra carta lentamente.
eremita.
o peito de isadora apertou imediatamente.
— ele abre suas mensagens e fecha.
silêncio.
— você escreve muito, ele lê o que você escreve.
isadora abaixou os olhos pras cartas.
porque no fundo já sabia disso também.
sabia que o silêncio dele não parecia vazio.
parecia pesado demais.
como se existissem palavras demais presas dentro dele.
— então por que ele não fala comigo?
a cigana levantou outra carta.
nove de paus.
— medo.
— medo de quê? de mim?
a mulher ficou olhando pra ela por alguns segundos antes de responder:
— de responder errado.
de piorar tudo outra vez.
de reacender o caos.
de decepcionar você.
de não conseguir sustentar uma coisa tão intensa.
o silêncio ficou pesado entre as duas.
a chuva aumentava lá fora.
— ele acha que eu fui demais?
a cigana balançou a cabeça devagar.
— não. ele percebeu que você foi sincera demais pra ele continuar fingindo que isso é pouco.
os olhos de isadora queimaram imediatamente.
a mulher virou outra carta.
rei de copas.
— esse homem tá tentando controlar sentimentos que já cresceram além do que ele consegue controlar sozinho. você pensa que é porque ele sente menos por você, mas é o contrário, ele sente mais do que já sentiu antes.
isadora riu fraco.
— então ele prefere sumir e me deixar sem resposta depois de tudo?
— não. ele prefere pensar até encontrar uma resposta perfeita.
a cigana aproximou mais uma carta dela.
cavaleiro.
carta.
mago.
— mas ele quer falar com você.
o coração de isadora acelerou ridiculamente rápido.
— quer?
a mulher assentiu.
— ele pensa no que dizer.
pensa em como voltar.
pensa em como responder sem machucar você mais.
pensa em como transformar isso numa coisa menos dolorosa pros dois.
isadora passou os dedos pela borda da xícara tentando respirar normalmente.
— então por que parece que só eu tô sofrendo?
a cigana ficou quieta por alguns segundos antes de responder baixo:
— porque você sofre em voz alta.
ele sofre em silêncio.
o apartamento ficou quieto outra vez.
e então a mulher virou a última carta.
dois de copas.
a cigana sorriu fraco.
— vocês continuam se procurando mesmo separados. vocês se atraem por pensamentos o dia todo. essa é a carta mais forte de amor e conexão desde que o baralho foi inventado. e você sabe.
isadora sentiu vontade de chorar imediatamente.
— eu só queria que ele parasse de ter medo.
a mulher juntou as cartas devagar antes de falar:
— então talvez ele precise perceber que você não tá esperando perfeição. só coragem suficiente pra atravessar o silêncio. o que é verdadeiro sempre volta pra você.

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