tem um tipo muito específico de carência que faz o corpo reagir antes mesmo da mente entender o que está acontecendo.
o celular tocou e eu achei que era ele.
o que é quase engraçado, porque no fundo eu saberia que jamais seria.
ligar significaria falar. sustentar uma conversa. demonstrar carinho na própria voz. e às vezes ele nem mensagem manda.
mas mesmo assim meu coração acreditou primeiro.
foi automático. acelerou na mesma hora, minhas mãos ficaram geladas e eu senti aquele nervosismo absurdo, infantil, quase vergonhoso. igual criança quando escuta um barulho na porta achando que alguém finalmente chegou.
e o pior é que não era ele.
mas até eu olhar a tela, meu corpo inteiro já tinha criado expectativa suficiente pra me fazer tremer.
acho assustador como gostar de alguém muda a forma que a gente reage às coisas mais banais do mundo. porque era só um celular tocando. só isso. mas dentro de mim parecia um acontecimento gigantesco. como se uma simples ligação pudesse reorganizar meu dia inteiro.
e talvez pudesse mesmo.
porque quando a gente gosta de alguém desse jeito, tudo fica condicionado à presença da pessoa. uma notificação muda o humor. um silêncio estraga a semana. uma possibilidade minúscula já basta pro coração agir como se tivesse recebido oxigênio depois de muito tempo presa embaixo d’água.
quando eu percebi que não era ele, foi estranho o jeito que meu corpo demorou pra voltar ao normal. como se o coração tivesse corrido na frente da realidade e agora precisasse voltar sozinho, meio sem graça, meio perdido.
e talvez a parte mais triste seja essa: eu já sabia que ele não ligaria.
sabia porque pessoas que se acostumam ao silêncio dificilmente escolhem a delicadeza de uma ligação. ligação exige presença. exige intenção. exige querer ouvir o outro também.
e ainda assim, por alguns segundos, meu coração acreditou naquela possibilidade como uma criança acredita em mágica.
só pra descobrir, de novo, que era só um toque qualquer atravessando uma casa silenciosa.

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