TheGioBlog

it´s just me

betty

“você ainda escreve sobre isso?”

nina perguntou isso encostada na bancada da cozinha enquanto me via mexer distraidamente no café já frio.

eu dei de ombros.

— não sei fazer muita coisa além disso ultimamente.

ela ficou quieta por alguns segundos antes de rir fraco.

— vocês dois parecem personagens de música triste da taylor swift.

— isso não é um elogio.

— eu sei.

a casa tava silenciosa.
daqueles silêncios cansados de domingo à noite.
luz baixa.
cidade distante pela janela.
e aquela sensação horrível de que o tempo continua passando mesmo quando alguma coisa importante na sua vida fica parada.

nina sentou na minha frente.

— faz quanto tempo agora?

engoli seco.

— quase um mês.

ela arregalou os olhos devagar.

— meu deus.

eu ri sem humor.

— é.

e talvez a pior parte fosse justamente aquilo.
quase um mês e eu ainda conseguia lembrar exatamente da última vez que vi ele.

o jeito que olhou pra mim.
o jeito que parecia tão perto naquela noite e absurdamente distante depois.

nina me observava em silêncio.

— você acha que ele lê seus textos?

dei outro gole no café.

— acho.

— e o que você acha que ele pensa?

demorei um pouco pra responder.

porque a verdade era humilhante demais.

— acho que ele pensa em me responder o tempo inteiro.

ela ficou quieta.

— mas?

encostei a cabeça na cadeira.

— mas ele é o tipo de pessoa que transforma sentimento em silêncio.

nina fez uma cara triste imediatamente.

e talvez aquela fosse a definição mais exata dele que eu já tinha encontrado.

porque eu conseguia imaginar perfeitamente ele olhando minhas postagens às duas da manhã sem coragem de mandar nada.

conseguia imaginar ele abrindo nossa conversa, digitando alguma coisa e apagando depois.

conseguia imaginar ele pensando:

“eu ouvi todos os áudios.”

“eu sei que machuquei ela.”

“eu também não consegui esquecer.”

“eu também sinto falta.”

“eu só precisava pensar.”

e talvez fosse exatamente isso que me enlouquecesse.

porque eu sabia imaginar perfeitamente ele voltando.

mas algumas pessoas nasceram com a estranha habilidade de sentir profundamente e ainda assim permanecer imóveis.

e eu odiava isso nele.

odiava porque eu era o contrário.

eu falava.
eu escrevia.
eu implodia emocionalmente em público se fosse preciso.

ele desaparecia pra dentro da própria cabeça.

combinação infernal.

nina ficou mexendo distraidamente no celular antes de perguntar baixo:

— e se ele nunca responder você?

a pergunta ficou parada no meio da cozinha.

eu olhei pela janela por alguns segundos antes de rir fraco.

— então acho que eu vou passar muito tempo da minha vida tentando entender como alguém pode sentir tanto e ainda assim deixar o silêncio e o medo vencerem.

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