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it´s just me

os meninos que deixam portas batendo

Helena sempre teve o péssimo hábito de acreditar nas pessoas pelo que elas pareciam quando sorriam.

Talvez fosse ingenuidade. Talvez esperança. Talvez aquela vontade quase infantil de achar que, em algum momento da vida, alguém finalmente pisaria leve no coração dela.

Mas amar alguém sempre parecia vir acompanhado de um pequeno desastre.

O último deles tinha olhos cansados e um jeito bonito de parecer perdido. Helena gostava de pessoas quebradas porque achava que quem conhecia a dor jamais escolheria causar dor nos outros. Era uma lógica bonita. Só não era tão simples assim.

Ela deixou ele entrar devagar na vida dela. E isso, para Helena, significava muito mais do que parecia.

Porque Helena odiava confiar.

Odiava entregar o coração nas mãos de alguém sabendo o estrago que uma pessoa distraída consegue fazer. Odiava deixar alguém conhecer seus medos, suas manias, os horários em que ela chorava em silêncio, os lados feios que ela escondia do resto do mundo.

E mais do que isso: odiava abrir a porta da própria casa.

Tinha algo profundamente íntimo em receber alguém dentro do próprio lar. Dividir o sofá, o travesseiro, o cheiro do quarto, os detalhes pequenos que fazem uma pessoa existir de verdade. Helena nunca entendeu como algumas pessoas conseguiam tratar isso com tanta leveza.

Para ela, permitir presença era quase um ato de amor.

Por isso doía tanto sentir que tudo aquilo parecia ter pesos diferentes para os dois.

Ele fazia Helena rir em dias em que ela mal conseguia sair da cama. Tocava nas feridas dela com delicadeza suficiente para que ela confundisse cuidado com permanência.

E então vinham os silêncios.

No começo, Helena inventava desculpas por ele. Está cansado. Está confuso. Está sobrecarregado. Pessoas boas também erram, repetia para si mesma como oração.

Só que existe um momento específico em que a ausência começa a doer mais do que qualquer briga.

Ela percebeu isso numa madrugada silenciosa, olhando para uma conversa parada havia dias. O quarto escuro, o celular iluminando o rosto e aquela sensação triste de ter dividido tanto de si com alguém que parecia não conseguir enxergar o tamanho daquilo.

E talvez tenha sido isso que mais machucou Helena: a sensação constante de precisar implorar para ser vista de verdade.

Implorar para que ele escutasse o que ela tentava dizer por trás das mensagens longas, das tentativas de conversa, das perguntas feitas com cuidado para não parecer “demais”.

Como se amar alguém transformasse automaticamente uma mulher em exagerada.

Na última vez que mandou mensagem para ele, Helena decidiu que seria completamente sincera.

Falou sobre o que sentia. Sobre o medo. Sobre a insegurança. Sobre a dor que o silêncio causava nela. Falou porque, diferente de fugir, ela sempre acreditou que sentimentos precisavam ser conversados antes de virarem feridas maiores.

Ela também sentia medo.

Medo de se apegar demais. Medo de ser abandonada. Medo de não ser suficiente. Medo de amar alguém que talvez nunca conseguisse corresponder da mesma maneira.

Mas, para Helena, medo nunca deveria impedir alguém de tratar o outro com cuidado.

Porque, na cabeça dela, quase tudo poderia ser resolvido com diálogo.

Conversas difíceis. Verdades desconfortáveis. Admitir limitações. Admitir sentimentos. Admitir que talvez você não saiba amar alguém direito ainda.

Qualquer coisa parecia menos dolorosa do que o silêncio.

O que Helena não conseguia suportar era a possibilidade de talvez não existir explicação bonita nenhuma.

Talvez ele não estivesse tão confuso assim. Talvez não estivesse sofrendo tanto quanto ela imaginava. Talvez não carregasse toda aquela profundidade que ela insistia em enxergar nele.

E essa ideia destruía Helena mais do que o abandono em si.

Porque ela ainda se recusava a acreditar que alguém pudesse entrar na vida de outra pessoa, conhecer suas vulnerabilidades mais íntimas, tocar seu corpo, dormir na sua casa, ouvir seus medos mais profundos e depois simplesmente seguir em frente sem pensar muito sobre o estrago deixado.

Ela não queria acreditar que ele pudesse ser só alguém cruel sem perceber.

Ou pior: percebendo.

Então Helena continuava tentando encontrar justificativas menos dolorosas. Medo. Imaturidade. Confusão emocional. Qualquer coisa que permitisse preservar um pouco da imagem bonita que tinha construído dele.

Porque aceitar que alguém talvez simplesmente não tenha tido consideração suficiente dói de um jeito quase humilhante.

Com o tempo, Helena percebeu que algumas pessoas entram na nossa vida carregando afetos que elas mesmas não sabem sustentar. Não necessariamente por maldade. Às vezes por incapacidade emocional de permanecer quando as coisas deixam de ser leves.

Mas isso não diminuía a dor.

Porque no fim, quem fica tentando entender os silêncios sempre se machuca um pouco mais.

As pessoas enxergavam apenas uma menina mexendo no celular, escrevendo textos tristes, ouvindo música no ônibus. Não enxergavam a vergonha silenciosa de perceber que entregou as partes mais íntimas de si para alguém que talvez nunca tenha entendido a dimensão disso.

Na última vez em que pensou nele, Helena já não sentiu raiva.

Só aquele cansaço profundo de quem finalmente entende que amor não deveria exigir que alguém implorasse para ser ouvido.

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