tem uma coisa muito triste sobre a autoestima feminina: ela quase nunca é totalmente nossa.
por mais segura que uma mulher pareça, sempre existe uma parte dela que depende do olhar externo sem nem perceber. do afeto. da validação. da sensação de ser desejada.
e às vezes basta uma decepção, um término, um afastamento, uma rejeição, para tudo desmoronar de um jeito assustadoramente rápido.
não de forma dramática. de forma silenciosa.
a mulher continua vivendo normalmente. continua saindo, estudando, trabalhando, postando foto, rindo com as amigas. mas começa a se olhar diferente no espelho. começa a procurar defeitos que nunca tinham importado antes.
o cabelo parece errado. a pele parece cansada. a roupa deixa de vestir do jeito que ela queria. e, de repente, ela começa a se sentir feia. gorda. insuficiente.
e então começa a pior parte: a comparação.
será que as outras eram mais bonitas?
mais magras?
mais femininas?
mais fáceis de amar?
mais interessantes?
menos intensas?
é quase automático. como se a dor emocional procurasse algum motivo físico pra existir. como se fosse impossível acreditar que alguém pode simplesmente não saber amar direito, mudar, se afastar ou se perder, sem que isso tenha relação direta com a aparência de uma mulher.
e é cruel perceber quantas mulheres passam a odiar o próprio corpo por causa de dores que começaram no emocional.
porque a autoestima feminina é frágil de um jeito específico: ela foi construída a vida inteira em cima da ideia de aprovação. desde pequenas aprendemos que ser bonita significa ser escolhida. significa ser desejada. significa ter valor.
então quando alguma coisa dá errado emocionalmente, muitas mulheres não pensam “isso não define quem eu sou”. elas pensam “o que há de errado comigo?”
e ninguém percebe o tamanho desse estrago.
ninguém vê a menina encarando o espelho por tempo demais. apagando fotos. puxando a blusa pra esconder o corpo. se comparando com mulheres aleatórias na internet. deixando de se sentir bonita em lugares onde antes se sentia segura.
talvez uma das coisas mais dolorosas de ser mulher seja justamente essa facilidade absurda que o afeto tem de alterar completamente a forma como enxergamos a nós mesmas.

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