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it´s just me

family line

clara aprendeu a reconhecer o clima da casa antes mesmo de abrir a porta

não pelo silêncio ou pelo barulho, mas por uma sensação que vinha antes de qualquer coisa concreta. como se o ar avisasse. como se existisse uma versão da mãe esperando por ela, e o problema fosse nunca saber qual

em alguns dias, helena estava leve

perguntava como tinha sido o dia, oferecia ajuda, fazia pequenos gestos que pareciam cuidado. era nesses momentos que clara quase acreditava. sentia uma esperança tímida, cuidadosa, como quem já se machucou antes, mas ainda tenta. pensava que talvez agora fosse diferente. que talvez, finalmente, pudesse ser simples

mas nunca era

porque a mudança não durava o suficiente para virar segurança. bastava um detalhe, uma resposta atravessada, um cansaço mal colocado, e tudo se desfazia rápido demais. a voz de helena mudava, endurecia, e o que antes parecia afeto virava cobrança

a ajuda vinha de volta como dívida

tudo era lembrado, reorganizado, devolvido como argumento. nada ficava no passado. nada era só gesto. existia sempre um depois, um momento em que aquilo seria usado contra clara

e isso cansava de um jeito que ela nem sabia explicar

era o tipo de cansaço que não vem de fazer demais, mas de nunca poder relaxar. de estar sempre em alerta, tentando prever, tentando evitar, tentando não errar em um jogo cujas regras mudavam o tempo inteiro

nos dias ruins, helena não economizava

falava alto, xingava, diminuía. e o que mais doía não era só o tom, mas o alvo. as crises emocionais de clara, que já eram difíceis de atravessar, viravam argumento. eram tratadas como exagero, como fraqueza, como prova de que havia algo errado nela

e não parava aí

até os momentos mais delicados eram atravessados por esse mesmo movimento. situações em que clara já tinha sido ferida, invadida, desrespeitada, acabavam sendo reduzidas, questionadas, deslegitimadas. como se nem a dor mais evidente fosse suficiente para ser levada a sério

como se fosse mais confortável desacreditar do que acolher

como se helena preferisse clara mal, instável, duvidando de si mesma, do que bem e segura o suficiente para não precisar mais daquele controle

foi aí que a raiva começou a crescer

não como explosão imediata, mas como acúmulo. uma raiva que não tinha para onde ir, que ficava presa, que era engolida. até que deixou de caber

e então clara aprendeu a devolver

não da melhor forma, não da forma mais madura, mas da única que parecia possível naquele contexto. aprendeu a responder no mesmo tom, a cortar de volta, a levantar a voz quando era atacada. uma tentativa de se proteger que, ao mesmo tempo, a machucava

porque cada vez que fazia isso, sentia que estava se afastando de quem queria ser

mas também sabia que ficar em silêncio tinha um custo ainda maior

augusto quase nunca entrava

ficava à margem, como se a casa fosse um lugar que ele atravessava sem tocar. assistia às discussões como quem espera que passem sozinhas. dizia pouco, fazia menos ainda. a neutralidade dele parecia uma escolha consciente, quase um posicionamento

mas, para clara, soava como ausência

ele só se movia quando virava alvo direto. quando as palavras de helena começavam a atingir ele também, aí sim havia reação, desconforto, alguma tentativa de se colocar. mas, antes disso, quando era só clara, o silêncio permanecia

e o silêncio, ali, também feria

porque não intervir também é uma forma de escolher

clara nunca entendeu exatamente como augusto conseguia se convencer de que fazia o melhor. talvez fosse mais fácil assim. talvez fosse a forma que ele encontrou de continuar existindo naquela dinâmica sem precisar confrontar nada de verdade

mas, na prática, o que ficava era um vazio

não havia defesa, não havia acolhimento, não havia presença afetiva que sustentasse. era como se ele estivesse sempre perto, mas nunca realmente disponível

e isso, de um jeito mais quieto, também machucava

por muito tempo, clara torceu por ele

torceu para que ele percebesse. para que, em algum momento, ele olhasse de verdade para o que estava acontecendo e entendesse que aquilo já tinha passado do limite. que não era só conflito de casa, não era só fase, não era só temperamento

não era saudável

não era sustentável

ela esperou que ele fosse a saída

que ele dissesse que não dava mais, que ajudasse a tirar ela dali, que oferecesse algum tipo de apoio concreto, algum gesto que quebrasse aquela lógica de abandono silencioso

mas isso nunca veio

e talvez essa tenha sido uma das partes mais difíceis de aceitar

não foi só a violência das palavras de helena

foi também a ausência de qualquer interrupção

clara começou a duvidar

será que sente demais, será que é isso mesmo, será que o problema é ela

mas existiam momentos de lucidez, curtos e intensos, em que tudo ficava claro de novo

não, não é normal
não, não é justo
não, não deveria ser assim

só que entender não muda o que acontece

helena carregava uma frustração que não cabia nela. uma vida que não saiu como o esperado, escolhas que pesavam, um incômodo constante que parecia não ter nome. e sem espaço para elaborar isso, tudo escapava da forma mais próxima possível

sempre em clara

e talvez o mais difícil fosse isso. saber que não era pessoal e, ainda assim, sentir tudo como se fosse

com o tempo, clara parou de tentar explicar tanto

não porque não tivesse o que dizer, mas porque aprendeu que ali não existia espaço real de escuta. qualquer tentativa virava confronto. qualquer sentimento virava problema

então ela começou a guardar

e junto com o silêncio, veio um pensamento que antes parecia errado demais para existir

o de ir embora

não por raiva, não como vingança, mas como necessidade. como quem percebe que continuar ali exige um preço alto demais

clara não sabia exatamente o que sentia pelos dois

não era ódio. mas também não era o amor simples que sempre disseram que deveria existir. era uma mistura confusa de mágoa, cansaço e uma saudade estranha de algo que nunca chegou a existir de verdade

a ideia de uma família diferente

e talvez crescer fosse isso

parar de esperar que eles se tornassem essas pessoas

e entender que, às vezes, a única forma de ficar em paz é escolher a própria distância

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