eu comecei a perceber isso antes mesmo de conseguir explicar.
tem certos gostos que a gente aprende a suavizar quando fala em voz alta.
como se precisassem vir acompanhados de um pedido de desculpa.
“é meio bobo, mas eu gosto…”
e, quase sempre, esses gostos têm uma coisa em comum:
são associados ao feminino.
ser fã de diva pop, por exemplo, nunca vem sozinho.
vem com julgamento, com piada, com aquele olhar que diminui.
como se fosse exagero.
como se fosse histeria.
como se não fosse sério.
e isso não é aleatório.
a própria ideia de “histeria” vem de hystéra, útero em grego. ou seja, desde muito tempo, emoção feminina é tratada como algo descontrolado, menor, irracional.
e isso atravessa até hoje o jeito que as pessoas enxergam o que mulheres gostam.
porque o problema nunca foi gostar.
foi quem gosta.
no brasil, por exemplo, o futebol é praticamente uma instituição cultural.
dados do IBGE mostram o tamanho desse impacto na construção de identidade nacional.
e ninguém questiona.
ninguém acha estranho alguém saber escalação, estatística, história de campeonato de anos atrás.
isso é visto como interesse legítimo.
como conhecimento.
como cultura.
agora muda o cenário.
uma menina que acompanha cada detalhe da carreira da Taylor Swift, que entende as referências, que interpreta letras, que sabe fases, contextos, narrativas.
de repente, isso vira obsessão.
vira exagero.
vira algo menor.
mesmo sendo, na prática, o mesmo nível de dedicação, só que aplicado a algo considerado “de menina”.
e o mais curioso é que nem sair desse lugar resolve.
porque quando meninas gostam de coisas consideradas “de menino”, o tratamento não melhora, ele só muda de forma.
se uma menina gosta de futebol, ela precisa provar.
precisa saber escalação, regra, histórico.
precisa passar por um tipo de teste constante para ser levada a sério.
como se o interesse dela fosse sempre suspeito.
como se fosse performático.
como se fosse para chamar atenção.
o mesmo acontece com cultura geek, super-heróis, jogos.
o que, para homens, é automático, para mulheres vira validação contínua.
e isso revela uma coisa simples, mas incômoda.
não é sobre o que você gosta.
é sobre você.
pesquisas do Pew Research Center mostram que interesses femininos têm mais chance de serem tratados como menos sérios, principalmente em ambientes culturais e digitais.
e relatórios da UNESCO indicam que produções voltadas ao público feminino recebem menos reconhecimento crítico, mesmo quando têm impacto enorme.
porque têm.
a indústria movida por fãs, em grande parte mulheres, movimenta bilhões.
turnês de artistas pop estão entre as mais lucrativas do mundo.
o alcance cultural é gigantesco.
mas, ainda assim, o discurso continua sendo o mesmo.
é fútil.
é exagerado.
não é tão importante assim.
e talvez o mais sutil nisso tudo seja o efeito que isso causa.
porque a gente aprende.
aprende a diminuir o que gosta antes que alguém faça isso pela gente.
aprende a rir junto da própria paixão.
aprende a não levar a si mesma tão a sério.
como se tudo que vem da gente também precisasse ser pequeno.
só que não é.
nunca foi.
acompanhar uma artista, se identificar com letras, entender fases, sentir, tudo isso também é forma de construir quem você é.
é linguagem emocional.
é interpretação.
é pertencimento.
e isso não é menos profundo só porque é feminino.
no fim, a questão nunca foi sobre o gosto em si.
foi sobre quem teve o poder de definir o que merece ser respeitado.
e, principalmente, quem precisa provar, o tempo todo, que merece estar ali.

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