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it´s just me

sobre as amizades que a gente não leva até o fim

existe um tipo de perda que não é falado com a mesma frequência que deveria

não tem ritual, não tem encerramento claro, não tem explicação objetiva

só acontece

amizades também acabam

ou, talvez, não acabem de fato, mas se transformem em algo que já não é reconhecível

esse texto é sobre isso

sobre as pessoas que foram essenciais em algum momento, mas que, por diferentes caminhos, deixaram de ocupar o mesmo lugar

os nomes aqui são fictícios, mas as histórias não são

Layla foi, por muitos anos, a definição mais concreta de amizade

quando penso em vínculo, em presença, em constância, é nela que eu penso primeiro

a imagem ainda é muito específica

duas marias-chiquinhas, cabelo loiro, óculos roxos

a gente tinha seis anos quando aquilo começou

não existe um momento exato que explique como duas crianças se tornam inseparáveis, mas existe a memória de uma conexão que, por muito tempo, foi suficiente

Layla não era apenas uma amiga

ela era referência

era casa

e talvez por isso, olhando hoje, também fosse inevitável que houvesse ruídos

eu era intensa, ciumenta, muitas vezes controladora sem perceber

ela era leve de um jeito que eu não sabia ser

a gente cresceu juntas até o ponto em que a vida começou a exigir escolhas diferentes

aos quinze anos, Layla mudou de escola

e, naquele momento, o que pra ela era um movimento natural, pra mim foi ruptura

não houve uma discussão específica, nem um evento que marcasse um fim

houve uma frase

ela disse que tinha novos amigos

que talvez a gente não ficasse mais juntas o tempo todo

e aquilo foi suficiente

amizades não terminam necessariamente com brigas

às vezes elas terminam com a percepção de que o outro já não precisa mais de você da mesma forma

o distanciamento veio depois, de forma gradual

2020 não ajudou

ninguém sabia exatamente como as relações sobreviveriam ao isolamento, e muitas não sobreviveram

com o tempo, Layla seguiu

novos espaços, novas pessoas, outra rotina

ela estava bem

e, por muito tempo, isso foi difícil de aceitar

porque o sentimento não era apenas de saudade

era de substituição

enquanto isso, do outro lado, a realidade era diferente

um relacionamento abusivo

um diagnóstico de depressão severa

um afastamento da escola

Layla seguiu em frente

eu fiquei parada por um tempo

anos depois, o contato voltou, de forma pontual

existem tentativas de encontro, conversas esporádicas, uma cordialidade que não apaga o passado, mas também não o recria

não é mais a mesma relação

e talvez nunca volte a ser

o que resta é um tipo de luto silencioso

por algo que existiu de forma muito intensa, mas que não encontrou continuidade

Mia também fez parte dessa história

por um período, éramos três

eu, Layla e Mia

um equilíbrio que funcionou enquanto durou

Mia tinha uma realidade diferente

mais instável, mais difícil desde o início

o afastamento dela não foi imediato, mas seguiu uma lógica parecida

mudança de espaço, novas circunstâncias, distanciamento progressivo

a diferença é que, no caso dela, houve uma ruptura mais evidente

Mia se envolveu com um homem mais velho

construiu uma relação baseada em uma ideia de amor que, na prática, não se sustentava

ela deixou tudo para trás

amigos, rotina, referências

engravidou aos vinte e um anos

de alguém que já tinha outros filhos e um histórico problemático

o que, em algum momento, parecia uma promessa de estabilidade, se revelou o contrário

Mia não encontrou um caminho de saída

e, aos poucos, deixou de ser acessível

houve uma última tentativa de permanência

uma tentativa de estar presente, de apoiar, de não repetir o abandono que tantas vezes marca esse tipo de relação

mas existem limites

e, quando esses limites são ultrapassados, a permanência também deixa de ser possível

a última conversa veio depois de um conflito direto

a recusa em conviver com o agressor

a escolha dela de permanecer

e, a partir dali, o silêncio

diferente de Layla, cujo afastamento se deu pelo tempo e pelas mudanças naturais, Mia representa uma perda que ainda está em aberto

não há resolução

não há fechamento

existe apenas a consciência de que nem sempre é possível salvar alguém

essas duas histórias, apesar de diferentes, apontam para um mesmo ponto

nem toda relação foi feita para durar

e nem todo afastamento é evitável

algumas pessoas são fundamentais em determinados momentos

e deixam de ser possíveis em outros

isso não apaga o que foi vivido

mas também não garante continuidade

no fim, o que fica não é exatamente a amizade como ela existia

mas a memória dela

e, em alguns casos, o reconhecimento de que certos vínculos não terminam completamente

eles apenas deixam de existir no presente

e passam a ocupar outro lugar

um lugar que não se acessa mais

mas que continua existindo, de alguma forma, em quem a gente foi

e em quem a gente ainda é por causa disso

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