esse texto é sobre a annabelle, um nome fictício de alguém a qual conheço, a annabelle pode ser eu, você, alguma amiga sua, ou todas nós.
existe uma imagem que as pessoas constroem dela com muita facilidade
a de alguém resolvida, segura, emocionalmente estável, que sabe exatamente o que está fazendo
e, em parte, isso não está errado
ela sabe o que quer
sabe se posicionar
sabe quando algo não serve mais
sabe se reconstruir quando precisa
mas essa não é a história inteira
existe um outro lado, menos visível, que não aparece nas conversas, nem nas decisões bem tomadas, nem na forma como ela se apresenta
é o lado que sente demais
não de forma leve, nem passageira, mas intensa, constante, difícil de ignorar
e é nesse ponto que surge um conflito que, para ela, tem sido cada vez mais presente
ela é, ao mesmo tempo, alguém que entende racionalmente o que acontece ao redor e alguém que reage emocionalmente antes mesmo de conseguir organizar esse entendimento
isso gera reatividade
em momentos de tensão, ela não recua imediatamente
ela quer resolver
quer respostas
quer clareza
e, principalmente, quer interromper o desconforto o mais rápido possível
não é sobre exagero
é sobre intensidade
depois que passa, ela volta para um estado mais racional, mais analítico, mais alinhado com quem sabe que é
mas o intervalo entre essas duas versões existe
e ele é real
o problema é que, na tentativa de equilibrar isso, ela começa a se colocar em posições que não são verdadeiras
reduz o que sente
finge indiferença onde existe envolvimento
tenta parecer menos intensa do que realmente é
como uma forma de controle
o resultado é uma sensação constante de desalinhamento
porque ela sabe quem é, mas ao mesmo tempo está sempre ajustando essa versão para caber em expectativas, dinâmicas ou até em pessoas
e isso cobra um preço
principalmente quando começa a perceber que, na maioria das vezes, é ela quem se adapta mais
é ela quem tenta entender mais
ceder mais
equilibrar mais
pensar antes de reagir
reformular o que sente para não gerar conflito
enquanto, do outro lado, isso nem sempre acontece na mesma medida
e essa diferença, mesmo que sutil, vai acumulando
vira desgaste
vira frustração
vira a sensação de estar sempre um passo além emocionalmente, mas sozinha nesse movimento
essa pressão não se limita às relações
ela também aparece de forma muito clara na maneira como ela pensa o próprio futuro
existe uma cobrança constante para que tudo faça sentido, para que tudo avance, para que ela não perca tempo, para que construa algo sólido e definitivo
e, junto disso, existe uma vontade igualmente forte de ir embora
de recomeçar em outro lugar
de viver com mais leveza
de não carregar o mesmo peso emocional em todos os espaços
quando esteve em Oakland, percebeu isso com clareza
não só pelo lugar, mas pela forma como existia ali
ela não estava o tempo inteiro se analisando
não estava tentando equilibrar versões de si mesma
não estava lidando com a pressão contínua de corresponder
ela simplesmente vivia
e essa diferença é difícil de ignorar depois que é sentida
o contraste entre quem ela é nesses dois cenários escancara que parte desse peso não é inevitável, mas construído
ainda assim, voltar para esse estado não é automático
porque, mesmo entendendo tudo isso, ela continua sendo alguém que sente intensamente
que, em alguns momentos, reage mais do que gostaria
que busca controle quando o que existe é incerteza
e que, às vezes, se perde tentando equilibrar o que sente com o que acredita que deveria sentir
o ponto não é negar nenhuma dessas versões
elas coexistem
a questão é entender como viver sem transformar essa intensidade em um problema constante
e, principalmente, sem se afastar de si mesma no processo
porque, no fim, não se trata de deixar de sentir
mas de não se perder toda vez que isso acontece

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