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it´s just me

o que eu aprendi quando finalmente fui embora

eu tinha 15 anos quando começou.
e talvez isso já diga muita coisa.

não começou com gritos.
começou com atenção.

e eu não sabia, naquela época, que atenção demais também pode ser um tipo de armadilha.

no começo, era bonito. intenso. parecia coisa de filme. alguém que queria saber de tudo, que queria estar o tempo todo, que fazia questão de mim. e, aos poucos, eu fui confundindo controle com cuidado, ciúme com amor, insistência com importância.

ninguém entra num relacionamento abusivo achando que está entrando num relacionamento abusivo.

a gente vai ficando.

fica porque acredita.
fica porque lembra de quem a pessoa era no começo.
fica porque acha que vai voltar a ser daquele jeito.

até que as coisas começam a mudar. devagar o suficiente pra você se adaptar sem perceber.

primeiro, vêm os xingamentos disfarçados de irritação. a forma como ele fala com você muda, como se o respeito fosse opcional dependendo do humor do dia.

depois, o corpo também começa a falar.

empurrões que você tenta minimizar.
mãos que apertam seu pulso com força demais numa discussão.
uma proximidade que deixa de ser carinho e vira imposição.

e você racionaliza.

você diz pra si mesma que não foi tão grave assim. que ele estava nervoso. que não vai acontecer de novo.

mas acontece.

e junto com isso vem outra coisa, talvez ainda mais difícil de nomear. o silêncio.

o tratamento de silêncio.

dias inteiros sem resposta. sem explicação. sem fechamento. você ali, presa naquilo, tentando entender o que fez de errado, revisando cada palavra, cada atitude.

é um tipo de violência que não faz barulho, mas ocupa tudo.

porque ele te tira o chão.

você começa a duvidar da sua própria percepção. começa a achar que está exagerando, que está sendo dramática. começa a pedir desculpa por coisas que nem entende direito.

e, aos poucos, você vai se moldando.

vai falando menos.
vai evitando conflitos.
vai tentando ser mais fácil, mais leve, mais aceitável.

vai deixando de ser você.

durante três anos, dos 15 aos 19, eu fui aprendendo a sobreviver dentro de uma dinâmica que me diminuía.

e o mais assustador é o quanto isso vira normal.

como se fosse só mais um tipo de relacionamento.
como se fosse só uma fase difícil.

não é.

isso deixa marcas.

não só na memória, mas no jeito que você reage depois. no susto com mudanças de tom. na ansiedade quando alguém demora pra responder. na necessidade de antecipar conflitos antes mesmo de eles existirem.

isso é trauma.

e sair disso não é só terminar.

é reconstruir a própria percepção.
é reaprender o que é respeito.
é entender que amor não deveria doer desse jeito.

eu saí.

não de forma perfeita. não sem idas e voltas emocionais. mas eu saí.

e hoje, o que ficou não foi só a história.

foi o limite.

eu não aceito mais desrespeito travestido de intensidade.
eu não normalizo mais alguém invadindo meu espaço, físico ou emocional.
eu não fico onde o silêncio é usado como punição.

eu posso até gostar de alguém.
posso até tentar.

mas eu não negocio mais comigo mesma.

porque eu sei exatamente como começa.
e, principalmente, eu sei exatamente como termina.

e dessa vez, eu escolho não voltar

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