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it´s just me

a despedida

acho que a pior parte de perder alguém não é quando a pessoa vai embora.

é quando você continua tentando entender por quê.

porque existe uma diferença enorme entre a dor da perda e a dor da dúvida.

a perda machuca.

a dúvida corrói.

ela senta ao seu lado no meio da madrugada e fica repetindo as mesmas perguntas.

como alguém que me amava conseguiu fazer isso?

como alguém que me dizia aquelas coisas conseguiu ir embora desse jeito?

como alguém que conheceu todas as minhas cicatrizes escolheu se tornar mais uma?

eu passei dias procurando respostas.

nas mensagens.

nos silêncios.

nas lembranças.

nas cartas.

em qualquer lugar que me permitisse acreditar que ainda existia alguma lógica escondida dentro do caos.

e quanto mais eu procurava, menos encontrava.

até que meu corpo resolveu sentir por mim.

porque existe uma tristeza tão grande que ela deixa de ser sentimento.

vira falta de ar.

vira tremor.

vira enjoo.

vira vômito.

eu vomitei porque meu coração estava carregando mais do que conseguia suportar.

e acho que nunca vou esquecer a humilhação silenciosa que existe em descobrir que uma pessoa pode te partir ao meio sem sequer estar presente.

mas o mais difícil é que eu não consigo transformar você em um vilão.

seria mais fácil se eu conseguisse.

seria muito mais fácil te odiar.

muito mais fácil dizer que tudo foi mentira.

que você nunca se importou.

que nada foi real.

mas eu não acredito nisso.

porque, olhando para tudo, eu nunca vi um homem sem sentimentos.

eu vi um homem com medo.

um homem que se esconde quando a vida fica grande demais.

um homem que passa tanto tempo dentro da própria cabeça que às vezes esquece de voltar para o mundo real.

um homem que acredita que precisa carregar tudo sozinho.

um homem que tenta resolver a dor desaparecendo.

e talvez seja justamente aí que mora a tragédia.

porque eu nunca tive medo da dor.

eu tinha medo do silêncio.

eu tinha medo da ausência.

eu tinha medo de ser deixada sozinha dentro de uma história que era nossa.

eu olhava para você e via alguém que me amava.

mas também via alguém que não acreditava ser suficiente para esse amor.

alguém que parecia sempre esperar o momento em que tudo daria errado.

como se estivesse preparado para perder as pessoas antes mesmo delas irem embora.

e eu queria tanto que você enxergasse o que eu enxergava.

queria tanto que você se visse através dos meus olhos.

porque eu nunca vi um homem impossível de amar.

eu vi um homem gentil.

engraçado.

inteligente.

cuidadoso nas pequenas coisas.

um homem que me fazia sentir em casa.

mas também vi alguém que, quando ficou assustado, escolheu correr.

e talvez você também esteja carregando perguntas.

talvez exista uma parte de você pensando em tudo isso.

talvez exista uma parte de você se perguntando se poderia ter feito diferente.

talvez exista uma parte de você tentando entender por que me machucou tanto.

talvez exista uma parte de você olhando para toda essa bagunça e pensando que ela ficou maior do que deveria.

talvez exista uma parte de você percebendo que eu realmente podia ir embora.

eu nunca vou saber.

e acho que essa é uma das coisas mais difíceis de aceitar.

existem histórias que terminam sem explicação.

sem fechamento.

sem uma conversa bonita no final.

sem alguém finalmente dizer a frase certa.

apenas terminam.

e deixam duas pessoas tentando sobreviver aos próprios pensamentos.

mas talvez a parte mais cruel de tudo seja que eu ainda consigo imaginar outro final.

não um final perfeito.

não um final de filme.

não um final onde tudo magicamente dá certo.

apenas um final humano.

porque, apesar de toda a dor, apesar de todas as lágrimas, apesar de toda a raiva, ainda existe uma parte de mim que sabe que nada está escrito em pedra.

você ainda poderia ligar.

você ainda poderia aparecer.

você ainda poderia me olhar nos olhos e dizer a verdade.

você ainda poderia dizer que errou.

que teve medo.

que não soube lidar.

que se perdeu dentro da própria cabeça.

você ainda poderia escolher a coragem.

e talvez eu esteja sofrendo tanto porque eu sei disso.

porque eu sei que ainda existe uma escolha.

a mesma escolha que existiu todos os dias desde que você foi embora.

a escolha de continuar fugindo.

ou a escolha de finalmente ficar.

nem para prometer futuro.

nem para prometer que daria certo.

nem para prometer que o amor venceria tudo.

apenas para olhar para mim como um homem olha para alguém que amou e dizer o que precisava ser dito.

porque eu nunca precisei de perfeição.

eu precisava de presença.

eu precisava que você escolhesse ficar na conversa difícil.

que escolhesse me ligar quando tudo parecia impossível.

que escolhesse tentar, mesmo sem saber como.

e talvez uma parte de mim continue esperando isso.

não porque eu seja ingênua.

não porque eu viva de fantasias.

mas porque eu conheci o homem que existe por trás do medo.

e sei que ele existe.

sei que existe um homem capaz de assumir os próprios erros.

capaz de pedir desculpas.

capaz de ser honesto.

capaz de ser corajoso.

mesmo que por apenas cinco minutos.

porque às vezes cinco minutos de coragem mudam o destino de uma vida inteira.

mas, apesar de tudo, existe uma coisa que continua existindo dentro de mim.

carinho.

olha que absurdo.

depois de toda a dor.

depois de todas as lágrimas.

depois de todas as noites sem dormir.

depois de passar mal.

depois de vomitar.

depois de implorar por respostas.

depois de me despedir da sua irmã.

depois de agradecer a sua família.

ainda existe carinho.

porque eu amei você de verdade.

amei sua família.

amei sua irmã.

amei as pequenas coisas.

amei as possibilidades.

amei os planos que nunca chegaram a acontecer.

e não consigo apagar isso só porque estou sofrendo.

então talvez esta seja a minha despedida.

não uma despedida cheia de ódio.

não uma despedida que transforma você em algo que não é.

mas uma despedida triste.

profundamente triste.

porque eu continuo acreditando que havia amor aqui.

e porque uma parte de mim sempre vai se perguntar o que teria acontecido se, naquele momento, em vez de fugir para dentro de si mesmo, você tivesse ficado.

e se, naquele momento, nós dois tivéssemos sido um pouco mais corajosos.

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