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it´s just me

uma conversa passada com vovó

— Vó…

— Hum?

— Me fala a verdade.

A velha senhora continuou embaralhando as cartas devagar.

Como quem tinha visto muitos amores nascerem.

E muitos morrerem também.

— Qual verdade você quer ouvir?

A menina baixou os olhos.

— Ele me ama?

A avó suspirou.

Daqueles suspiros de quem já sabia a resposta antes mesmo das cartas tocarem a mesa.

Virou a primeira.

Oito de Copas.

— Aqui ele vai embora.

Virou a segunda.

Eremita.

— Aqui ele se esconde.

Virou a terceira.

Seis de Espadas.

— Aqui ele tenta atravessar a dor sozinho.

Virou a quarta.

Quatro de Copas.

A avó ficou alguns segundos olhando para a carta.

— E aqui ele descobre que fugir não trouxe a paz que imaginava.

A menina sentiu o coração apertar.

Porque aquela também era a sensação dela.

Ele tinha ido.

Mas não parecia feliz.

A avó continuou.

Virou o Diabo.

— Ah…

— O quê?

— Esse menino.

— O que tem?

A senhora sorriu.

— Ele está preso.

— Preso?

— Em você.

A menina sentiu os olhos marejarem.

— Então ele me ama?

A avó balançou a cabeça.

— Você sempre faz a pergunta errada.

— Como assim?

— Amor não é o mistério dessa mesa.

Ela apontou para o Diabo.

— Ele sente.

Apontou para o Sol.

— Ele sabe que sente.

Apontou para o Julgamento.

— E sabe exatamente o que deveria fazer.

Apontou para o Seis de Copas.

— E sente sua falta.

Apontou para a Imperatriz.

— E sabe o valor da mulher que perdeu.

A menina começou a chorar.

— Então por que ele não faz nada nunca?

A avó ficou em silêncio.

Um silêncio antigo.

Daqueles que só existem em mulheres que viveram muito.

— Porque, minha filha…

Ela segurou a mão da menina.

— Algumas pessoas são mais corajosas para sofrer do que para amar.

A menina chorou mais.

— Eu não entendo.

— Eu sei.

— Se ele me ama, por que não me liga?

— Porque sentir e agir nunca foram a mesma coisa.

A sala ficou silenciosa.

Só o barulho das cartas sendo recolhidas.

— Vó…

— Hum?

— Você acha que ele volta para pelos menos encerrar e pedir desculpas decentes?

A velha senhora sorriu.

— Ah, minha filha…

Vocês jovens adoram perguntar isso.

Quer saber se ele vai voltar pro amor de vocês.

A menina deu uma risada triste.

— E qual é a resposta?

— Talvez.

— Talvez?

— Talvez.

— Isso não ajuda em nada.

— Eu sei.

As duas riram.

Por um segundo.

Só por um segundo.

Depois a avó ficou séria.

— Mas eu vou te falar uma coisa que talvez você não queira ouvir.

— O quê?

A mulher virou a Rainha de Paus.

Depois a Rainha de Espadas.

Depois a Imperatriz.

— Eu estou muito mais interessada nessas três do que nele.

— Por quê?

— Porque são você.

A menina observou as cartas.

— E daí?

— E daí que eu vejo uma mulher linda.

Virou a Imperatriz.

— Inteligente.

Virou a Rainha de Espadas.

— Forte.

Virou a Rainha de Paus.

— Engraçada.

Corajosa.

Talentosa.

A menina desviou o olhar.

— Vó…

— Não termina.

Eu ainda não acabei.

Ela continuou.

— Eu vejo uma menina que atravessou coisas que nunca deveria ter atravessado.

Vejo uma menina que sobreviveu.

Que estudou.

Que trabalhou.

Todo mundo.

Que viajou o mundo.

Que construiu a própria vida.

Que entra em lugares e ilumina eles.

E que, por alguma razão absurda, decidiu sentar na porta da casa emocional de um homem esperando ele decidir se abre ou não.

A menina começou a chorar de novo.

— Eu amo ele.

— Eu sei que ama.

— Muito.

— Eu sei.

— E se ele for o amor da minha vida?

A avó sorriu.

Um sorriso tão gentil que quase doeu.

— Minha filha…

Se ele for o amor da sua vida, ele continua sendo o amor da sua vida enquanto você vive.

Enquanto você conhece pessoas.

Enquanto você vai ao cinema.

Enquanto você trabalha.

Enquanto você viaja.

Enquanto você ri.

Enquanto você descobre o mundo.

Amor não exige que você sente numa cadeira esperando.

A menina ficou quieta.

A avó apertou sua mão.

— Você falou com a irmã dele, não falou? Tirou um peso de ter sido mal vista?

— Falei.

— E ela foi querida com você.

— Foi.

— Gostou de você.

— Sim.

— A mãe dele também gostou de você.

— Sim.

— Você percebe a ironia?

— Qual?

A vó riu.

— Todo mundo enxergou quem você é.

A irmã.

A mãe.

Os seus amigos.

As pessoas que passaram pela sua vida e te perderam.

Menos o único homem que ainda está ocupado demais brigando com os próprios fantasmas.

A menina abaixou a cabeça.

— Então eu devo esquecer isso tudo?

A avó levantou o rosto dela.

Com carinho.

— Não.

— Não?

— Você deve viver.

— E esperar?

— Não.

— E se ele voltar?

A mulher recolheu todas as cartas.

O Diabo.

O Sol.

O Julgamento.

O Seis de Copas.

A Imperatriz.

E então respondeu:

— Se ele voltar, ele vai encontrar você vivendo. você como sempre foi.

Não parada.

Não com esse ódio.

Não com lágrimas.

Não esperando.

Não diminuída.

Vivendo.

Porque o homem que realmente merece encontrar você de novo não deveria encontrar uma mulher congelada no dia em que foi embora.

Deveria encontrar uma mulher que continuou florescendo mesmo depois da partida dele.

A avó beijou sua testa.

E sorriu.

— Agora vai.

— Pra onde?

— Ver o mundo, minha filha.

Tem gente demais querendo conhecer essa menina maravilhosa para você passar a vida inteira esperando um homem que já sabe que ama você, já sabe o seu valor, já sabe que esteve diante de um raio de sol na sua vida e na dos dele, já sabe exatamente o que está perdendo…

e ainda assim continua tentando descobrir se é corajoso o suficiente para fazer alguma coisa sobre isso.

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